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  Título
Materialidade que liberta: a trajetória de Eduardo Coutinho rumo à oralidade
Autor
Daniela Muzi
Resumo Expandido
A cultura ocidental é marcadamente orientada pelo simbólico, pelo imaterial. Da distância entre a coisa em si e a palavra, se consolida a hermenêutica, que por sua vez, orienta grande parte das pesquisas em comunicação. Uma alternativa a essa tendência é a Teoria da Materialidade, inicialmente sistematizada por Hans Ulrich Gumbrecht, mas que possui filiações nos pensamentos de George Simmel, Siegfried Kracauer, Walter Benjamin, Harold Innis, Eric Havelock, Marshall McLuhan e Jacques Derrida.



A partir de uma aproximação com um dos pesquisadores da Escola de Toronto, Harold Innis, acerca de sua abordagem sobre a afetação das culturas e subjetividades pelas tecnologias de comunicação iremos, guardadas as devidas proporções, relacionar como determinadas tecnologias do cinema “emprestam” certas características aos filmes documentais, cujo desenvolvimento ao longo dos anos foi acompanhando de marcos tecnológicos como o advento do som direto e do vídeo. Para essa breve arqueologia, onde evidenciaremos uma profícua relação entre técnica e estética, usaremos como base a classificação proposta por Bill Nicholls (2005).



Baseado neste argumento, iremos propor uma relação da oralidade do cinema de Eduardo Coutinho com a materialidade proporcionada pelo vídeo analógico e digital que possibilitaram o aumento do tempo de gravação - o que seria impensável com o uso da película cinematográfica. Ícone maior do documentário brasileiro e elencado como um dos maiores documentaristas do mundo, Eduardo Coutinho demorou algum tempo para lapidar essa fama e cristalizar o seu estilo baseado na oralidade. Esta análise irá se concentrar nos filmes produzidos no período entre o início de sua carreira, em 1964, até a produção do longa-metragem “Babilônia 2000”, em 1999.



Atentar para a Teoria das Materialidades como uma forma de análise das novas tecnologias de comunicação e informação, como destaca Felinto, parece bem oportuno numa época onde presenciamos uma interação cada vez maior “entre corpo e máquina, entre sistemas de pensamento humanos e sistemas binários, entre o real e o virtual” (2001). Desta forma, adotar o viés da materialidade não significa rechaçar o paradgima hermenêutico, muito comum nas análises fílmicas, mas sim, deslocar o olhar para um plano que sempre permanceu na penumbra e atentar para questões anteriores ao conteúdo dos filmes que irão influenciar a forma das produções. Através deste olhar mais amplo, incluiremos as condições materiais das produção documental de Eduardo Coutinho dentro da análise da sua obra.

Bibliografia

DA-RIN, Silvio. Espelho Partido: tradição e transformação do documentário. Rio de Janeiro: Azougue, 2006.



FELINTO, Erick. Materialidades da Comunicação: Por um Novo Lugar da Matéria na Teoria da Comunicação. Ciberlegenda, Niterói: UFF, n. 5, 2001. Disponível em: . Acesso em 1 fev. 2010.



______; PEREIRA, V.A. A vida dos objetos: um diálogo com o pensamento da materialidade. Contemporânea - Revista de Comunicação e Cultura, Salvador: UFBA, vol.3, n.1, p.75-94, jan./jun.2005.



MACHADO, Arlindo. Máquina e Imaginário. São Paulo: Edusp, 1996.



______. As Três Gerações do Vídeo. In: Revista Sinopse, São Paulo, Unesp, 2001



NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. Campinas: Papirus, 2005



PEREIRA, V.A. Tendências das tecnologias de comunicação: da fala às mídias digitais. In: SÁ, Simone e ENNE, Ana Lúcia. (org.), Prazeres digitais: computadores, entretenimento e sociabilidade. Rio de Janeiro, E-papers, 2004.