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  Título
A escola vai ao cinema e vice-versa
Autor
Ana Paula Nunes
Resumo Expandido
Atualmente, podemos dizer que nascemos, crescemos, reproduzimo-nos e morremos mergulhados em um complexo universo de imagens e sons. As diversas mídias de comunicação estão presentes em cada minuto de nossas vidas. Em diversos sites de relacionamento, temos vídeos caseiros registrando nascimentos, os primeiros passos de bebês e todo tipo de fatos relevantes de uma vida. Muitos destes vídeos, alguns feitos com celular, já contam com montagens e trilha sonora, além de efeitos visuais e sonoros. Muitas crianças só se alimentam em frente à televisão, que é a “babá” mais barata e requisitada que existe. Muitos aprendem a falar antes de “papa” e “mama”, o nome do desenho animado preferido.

No entanto, ainda não aprendemos a ler e a escrever com as imagens e sons na escola. Dizer que o cinema (bem como as outras expressões audiovisuais) deveria fazer parte do currículo escolar desde o ensino fundamental, não é novidade. Antoine Vallet, em 1968, em seu livro Du Cine-club au langage total, já relatava sua experiência de vinte anos de trabalho com cinema e educação.

Na América Latina, em 1970, foi desenvolvido o projeto do SAL-OCIC (Secretariado para América Latina da Organização Católica Internacional de Cinema), no Centro de Orientación Cinematográfica de Quito, o PLAN DENI (Plano de niños), unindo inicialmente Peru, Uruguai e Brasil, posteriormente também República Dominicana, Paraguai e Bolívia. Deste projeto, com inspiração na “Linguagem Total” de Vallet, nasceu o CINEDUC – Cinema e Educação, no Brasil.

Em 2010, o Cineduc faz 40 anos de luta para a inclusão do cinema (entendido aqui como uma referência fundante para todo o audiovisual) na pauta da educação formal. Ressalvando, como já disse Vallet, a respeito da comunicação em geral, que “non pas, seulement, répétons-le, utiliser ces techniques pour l’enseignement de l’histoire, des sciences, de la géographie, mais les étudier d’abord pour elles-mêmes, comme moyens d’expression et de communication et comme formes d’art”. (1968, p17)

Para o sociólogo Pierre Bourdieu, a educação institucional é um dos principais indicadores de legitimação de um campo, isto é, quando um campo específico está inserido no sistema educacional, é sinal de que é um campo legítimo, que já passou por um longo processo de institucionalização, já é consagrado e reconhecido “naturalmente” como autoridade simbólica, mais precisamente, tem suas regras de constituição desconhecidamente aceitas.

No Brasil, apenas recentemente a educação começou a olhar com mais cuidado para o cinema, incluindo-o no vestibular e estimulando o surgimento de cineclubes. Na verdade, os professores de ensino fundamental e médio estão buscando conhecer linguagens que já fazem parte do universo dos alunos, o habitus não é formado só pela escola, a cada dia surgem novas redes de socialização, virtuais ou não, que muitas vezes substituem a função de transmissão de habitus para crianças e adolescentes, que antes pertencia majoritariamente à instituição escolar. São os alunos que “ensinam” hoje aos professores a lidarem com a grande diversidade de produção de imagens.

Esta comunicação tem como objetivo apresentar uma das experiências do Cineduc, o projeto “A escola vai ao cinema”, do SESC Nacional, desenvolvido em regionais do SESC espalhados por todo o país. O projeto (2003-2007) foi dirigido principalmente aos professores do ensino médio e fundamental, para que estes se tornassem agentes multiplicadores da democratização da linguagem audiovisual.

Como membro do Cineduc e participante do projeto, proponho uma exposição crítica, uma espécie de auto-análise com fins de socialização da experiência de uma ONG que já tem uma história de erros e acertos, em um campo que vê atualmente uma multiplicação de práticas. Trata-se de uma busca de comunhão de sonhos, em especial, o sonho de termos uma educação crítica, afinal: “Não existe ato mais revolucionário do que ensinar um homem a enfrentar o mundo enquanto criador” (GARAUDY, 1980, p184).
Bibliografia

BERGALA, Alain. A Hipótese-Cinema. RJ: Booklink e CINEAD/UFRJ, 2008

BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. 6. ed. São Paulo: Perspectiva, 2007.

______. O poder simbólico. 2.ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.

DUARTE, Rosália. Cinema e educação. BH: Autêntica Ed., 2002

GARAUDY, Roger. Dançar a vida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

LEANDRO, Anita. Da imagem pedagógica à pedagogia da imagem. Comunicação e Educação, v.21, p.29-36, SP: ECA/USP, 2001

SETTON, M. G. J. (org.) A cultura da mídia na escola – ensaios sobre cinema e educação. SP: Annablume, 2005

TEIXEIRA, Castro; ASSUNÇÃO, Inês; LOPES, Miguel & SOUZA, José (org.) A escola vai ao cinema. BH: Autêntica Ed. 2003

VALLET, Antoine. Du Cine-club au langage total. Paris: Ligel, 1968.

GUTIERREZ, Francisco. Linguagem Total: uma pedagogia dos meios de comunicação. São Paulo: Summus, 1978.