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  Título
O Sétimo Selo e Twilight Zone: limiares entre o erudito e o popular
Autor
CIRO INACIO MARCONDES
Resumo Expandido
No clássico e exaustivamente revisitado texto de Adorno e Horkheimer sobre a indústria cultural, uma das assertivas mais incômodas que encontramos é a de um certo fatalismo técnico, que indica que o conteúdo desta mesma indústria já estaria reificado pelo próprio modelo tecnológico antes mesmo que um sistema hierárquico de qualidades pudesse se processar, neutralizando mediocremente qualquer noção de erudito, popular, pop, e outros jargões hoje um tanto desgastados. A passagem do tempo fez com que esse debate se intensificasse e os ataques à indústria se tornassem ainda mais virulentos, como no caso de Guy Débord, para quem a natureza tecnocrática do espetáculo midiático automaticamente desautoriza abordagens não-autorreferenciais em seu próprio meio.

Dois casos de cultura audiovisual ocorridos neste ínterim parecem confirmar algumas proposições e negar absolutamente outras, procurando demonstrar que o alcance e a densidade do “espetáculo” midiático são mais ambíguos e polivalentes do que ordinariamente se imagina.

Em 1957 o diretor Ingmar Bergman lançou O sétimo selo, um dos filmes mais reconhecidamente eruditos da história do cinema, com poderosas referências ao imaginário medieval, Brueghel, o Velho Testamento, Shakespeare e todo um arsenal de ideias metafísicas sobre a natureza da morte. No enredo, um soturno cavaleiro encontra-se face a face com a Morte e pede-lhe uma chance de derrotá-la em uma partida de xadrez, jogo no qual ele jamais havia sido derrotado. Em 1959, a TV americana levou ao ar a série Twilight Zone, criada pelo inventivo Rod Serling, que tinha como mote um universo “entre os sonhos e a realidade”, palco para histórias insólitas e sem explicação aparente, aberta a experimentações narrativas e ao mesmo tempo banal como outros programas televisivos.

O segundo episódio de Twilight Zone, One for the angels, trazia como enredo justamente um exímio e honesto vendedor de bugigangas de rua que também recebe uma visita da Morte. O vendedor também procura ludibriá-la, dizendo que precisa fazer um último grande lance de venda antes de morrer. A tentativa de enganar a Morte em pessoa, seja através de um jogo de xadrez ou de uma desculpa para ganhar tempo, é um tema que se elabora nas duas obras, mas que se manifesta a partir de diferentes estratégias de representação.

No filme sueco, o referencial da questão metafísica da morte se dá em termos de uma continuidade absoluta de resgate de uma memória histórica e estética, à maneira benjaminiana. O diálogo com a pintura e o imaginário filosófico do medievo cristão traduz-se numa linhagem perene da inexorabilidade da morte. No filme, a suposta cultura erudita revela-se extremamente desconfiada com sua própria instrumentação. Dentro do contexto midiático de Twilight Zone, por outro lado, é através de um certa e rala esperteza e um toque de humor que o vendedor convence a morte a ainda não levá-lo. Se, em uma cena de Sétimo Selo, a Morte afirma que as pessoas passam a vida inteira sem olhar para a escuridão dentro de si e terão de fazê-lo no momento final, em One for the angels a ideia é a de que mesmo no momento final esse olhar obscuro pode ser neutralizado por algum tipo de procedimento técnico e charlatão, reforçando o caráter autolaudatório da televisão.

Em ambos os produtos, os temas da inevitabilidade da morte e de uma certa sublimação pela inocência/ignorância/arte são levantados e compreendidos equivalentemente. Porém, enquanto Bergman se reporta à história e à arte para traçar uma esteira humana que perpasse mundos diferentes e nos desarme contra o horror inevitável da morte, Twilight Zone, reproduzindo o discurso paranóico midiático, prefere negar a morte através do espetáculo mesmo quando aquela se efetiva, como se dissesse que estes temas só podem ser averiguados na autopoiese da própria televisão. Em nenhum momento a estrutura do próprio regimento interno midiático é questionada, sendo este o limite de sua reflexão.
Bibliografia

ADORNO, Theodor; HORKEHEIMER, Max. A indústria cultural. O iluminismo como Mistificação de massa. in: LIMA, Luis Costa. Teoria da cultura de massa. São Paulo: Paz e Terra, 2000.



BAUDRILLARD, Jean. A Ilusão vital. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2001.



DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Gallimard, 1992.



FOUCAULT, Michel. A microfísica do poder. São Paulo: Graal, 2002.



HARDT, Michael; NEGRI, Antonio. Império. Rio de Janeiro: Record, 2000.



MARCONDES FILHO, Ciro (Org.) Dicionário da comunicação. São Paulo: Paulus, 2009.



MATURANA, Humberto. Autopoiese e cognição. São Paulo: Record, 1972.



MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. São Paulo: Cultrix, 2005.