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  Título
A redenção da matéria: Dziga Vertov na imagem-movimento deleuzeana
Autor
Marcelo Carvalho da Silva
Resumo Expandido
A obra do cineasta russo Dziga Vertov tem importância capital para a tese do filósofo Gilles Deleuze sobre o cinema (nos livros A imagem-movimento e A imagem-tempo). Os filmes de Vertov se nutrem daquilo que Deleuze chama de “regime de variação universal” em A imagem-movimento, isto é, o estado primordial da matéria em constante interação – concepção oriunda de outro filósofo, Henri Bergson. Nosso objetivo é comentar tal inserção de Vertov na imagem-movimento deleuzeana, tendo por base não apenas A imagem-movimento, como também um comentário de Jacques Rancière (¿De una imagem a otra? Deleuze y las edades del cine), curiosamente bastante crítico à proposição geral deleuzeana. Veremos que, apesar de Rancière refutar o cerne da tese de Deleuze, alguns pontos de sua análise conviriam à leitura deleuzeana sobre o cineasta russo. O lugar que Deleuze reserva em seu projeto para Vertov é ímpar. Vertov levaria a percepção de volta às próprias coisas; um cinema que perfaz, por seus próprios meios, o primeiro capítulo materialista de Matéria e memória, de Bergson. No entanto, Rancière pergunta-se por qual motivo se faria necessário levar a percepção à matéria, já que a condição de partida do estudo de Deleuze (seu bergsonismo militante) seria, justamente, a de que a percepção (objetiva) já estaria na matéria.



De fato, Deleuze é tributário da filosofia bergsoneana e segue Bergson em sua definição de “imagem” (em Matéria e memória): a imagem seria a própria coisa, não haveria diferença alguma entre matéria e imagem. Mas a imagem também é luz que percorre o universo sem anteparos em uma percepção material objetiva. Trata-se, portanto, de movimentos imediatos de ação e reação da matéria; até que uma superfície opaca se forme no universo, um centro perceptivo, um intervalo no movimento da matéria, dando nascimento às percepções subjetivas, às ações mediatas e às afecções (o esquema sensório-motor): é o bastante para Bergson definir a matéria viva. Rancière chama-nos a atenção de que o que interrompe o caminho incessante da luz é algo ainda mais fino do que a vida: é o cérebro, o anteparo opaco por excelência. “O ‘cinema’ não é o nome de uma arte: é o nome do mundo” (RANCIÈRE, 2005: 132). Da mesma forma, é o próprio universo material que dá origem ao cinema, intervalo de movimento no universo como é o próprio ser vivo.



Rancière identifica em certa tendência de montagem da imagem-movimento deleuzeana uma espécie de devolução da matéria a si própria: é quando o esquema sensório-motor, resultante da instalação de um intervalo na matéria, é desmontado em prol do retorno à percepção não-intervalar e objetiva da matéria. Se é necessário dar às coisas o que elas já teriam (de maneira latente), isto é, a potência perceptiva objetiva, é porque as coisas perderam tal potência, e o vai-e-vem das imagens-luz no universo como movimento ininterrupto se viu interrompido pela opacidade de uma única imagem, o cérebro. Tal “confisco” constituiu um “mundo de imagens” para o uso do cérebro, tendo como meio o esquema sensório-motor, fazendo da imagem objetiva, da matéria, uma cadeia de causa e efeito segundo suas necessidades e seu controle.



Descer à matéria, ao regime material em si foi o grande projeto de Vertov, dando suporte ao enunciado comunista de sua mensagem política. O pensamento de cinema de Vertov atuaria, em alguns de seus momentos mais viscerais (como em O homem com uma câmera, de 1929), em um abandono do próprio cérebro-intervalo, fazendo-se matéria pelo cinema. Vertov concretizaria a percepção objetiva da matéria, extraindo dela as potencialidades sufocadas pelas relações de causa e efeito, pelas relações de utilidade segundo os imperativos da ação. A montagem vertoveana se inclinaria para a restituição da percepção às coisas. Trata-se de uma “redenção” (termo de Rancière): pelo desfazimento do ordenamento sensório-motor das imagens promovido pelo cérebro, restitui-se as imagens-mundo às imagens-mundo.

Bibliografia

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ZOURABICHVILI, François. Una Filosofia del Acontecimiento. Buenos Aires: Amorrortu, 2004.