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  Título
O cinema entre espectros e ruínas: Tarkovski, a imagem e a resistência
Autor
Tadeu Capistrano
Resumo Expandido
Realizados nos anos setenta, Solaris (1972) e Stalker (1978) colocam em questão um contexto histórico marcado pela emergência de novos modelos de imagem e espetáculo, e um regime de poder vigente durante a guerra fria que sugeria um futuro sombrio ou "apocalíptico". Baseados em obras literárias de ficção científica (de Stanislaw Len e do irmãos Strugatsky, respectivamente), ambos os filmes revelam uma dimensão meta-cinematográfica por suas reflexões sobre os contornos da imagem em uma época aviltada pelos discursos  do "cinema expandido", da "morte do cinema" e da "morte do homem". Solaris é um planeta que resiste a todas as tentativas tecnocientíficas de poder e controle de sua superfície repleta de radiações que podem ser uma nova fonte de energia para a Terra. Enclausurados em uma estação espacial e imersos na órbita do estranho planeta, cientistas têm suas percepções alteradas e não conseguem se livrar de suas memórias e sonhos, que se materializam na encarnação de corpos aparentemente vivos e deflagram uma dúvida no que significa ser humano. Esta atmosfera proto-cinematográfica, que envolve clausura, projeções e mobilização de afetos, retorna em Stalker, onde contempla-se um cenário em ruínas que sugere um futuro pós-apocalíptico. Nesta terra incógnita existe a possibilidade de conhecer "a zona", um misterioso lugar onde há um quarto que parece realizar todos os desejos humanos. No entanto, assim como no oceano de Solaris, seus visitantes têm suas existências sensoriais reconfiguradas e passam a se defrontar com incômodos que assombarm suas vidas. Estes dois filmes de Tarkovski, além de por em cheque a crise (ou a morte) do humanismo, também colocam em pauta a própria "ontologia da imagem cinematográfica" diante de novos imperativos de produção, solicitações tecnológicas e demandas perceptivas. Tais elementos evidenciam a instabilidade e a transitoriedade do cinema e seus espectador como formas culturais atuantes dentro de uma dinâmica de poder que tem início na modernidade industrial. Um dos efeitos dos processos de modernização tem sido a constante reelaboração da experiência perceptiva, sempre adaptada à exigência contínua de novas necessidades, desejos, produção e consumo. O "caráter espectral" da modernidade está na ilusão do progresso para um mundo de brilho e realização de sonhos que pode ser compartilhado de forma homogênea por indivíduos cada vez mais reduzidos ao estatuto de espectadores, amalgamados às redes espectrais de comunicação. Esta realidade espetacular tem ganhado novos contornos ao formar um novo regime de contemplação, controle e fascinação. Porém, um dos seus efeitos colaterais está na legião de espectros que também cada vez mais assaltam e assombram o presente com suas memórias:  fantasmas que não foram vencidos por processos políticos de racionalização, frustrações de projetos de emancipação não cumpridos, de vítimas dos mais variados extermínios que não foram ouvidas, e outros que "teimam" em retornar e abalar a vivência do presente. Entre espectros e ruínas da modernidade, com Tarkovski podemos pensar sobre os rumos da imagem cinematográfica e suas reações a este "mal-estar" que irrompe no mundo contemporâneo e clama por novas relações com o espectador.

Bibliografia

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DERRIDA, Jacques. Espectros de Marx. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1994.

MONDZAIN, Marie-José. Homo Spectator. Paris: Bayard Éditions, 2007.

GODARD, Jean-Luc. Historia(s) del cine. Buenos Aires: Caja Negra, 2007.

TARKOVSKI, Andrei. Esculpir o tempo. São Paulo: Martins Fontes, 1990