/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
O corte descontínuo no cinema comercial de ficção contemporâneo
Autor
Roberto Robalinho Lima
Resumo Expandido
Essa apresentação pretende fazer uma reflexão sobre de que maneira o corte descontínuo, recurso de “agressão” ao espectador, aparece agora nos filmes de grande público. O público não é mais agredido pela descontinuidade aparente do filme na tela ou pela interrupção da “impressão de realidade?

Feldman em um artigo recente discorre sobre essa problemática:



“Assim, assimilando e renovando os códigos realistas, que não se confundem com o engajado realismo “crítico” ou “revelatório” do passado (Xavier,2005), essas renovadas narrativas do espetáculo – pautadas pelo permanente incremento dos efeitos de adesão e identificação, bem como por uma função de mediação social por elas exercidas – não dizem respeito a uma organização formal da imagem, que seria “espetacular”, mas à construção de uma impressão de autenticidade cada vez mais intensa e eficiente, a partir da “precariedade” das formas, do gesto amador e da produção de novas transparências.” (Feldman, 2008:6).



Como aponta a autora, o uso do corte descontínuo nas produções contemporâneas associa-se ao que ela chama de “precariedade” das formas e expressa valores distintos do seu uso no cinema moderno. Nesse caso, o corte descontínuo está vinculado a um efeito de proximidade à realidade e aproxima o filme à uma produção caseira, jornalística, documental, mais próxima a uma idéia de “real”. Assim, o corte descontínuo, anteriormente relacionado a um distanciamento da narrativa e de um realismo “revelatório” da imagem, agora surge como um recurso de aproximação e de identificação do espectador, provocando um efeito realista.

Geunes (2005) segue uma outra direção ao identificar uma relação entre o corte descontínuo e as novas tecnologias de edição. Para o autor, a experiência de montar um filme no computador difere em essência da montagem numa moviola. O plano na tela do computador, afirma Geunes, perdeu sua relação com a materialidade do pedaço de filme. O autor relembra as dificuldades físicas da moviola que favoreciam o corte em continuidade e a linearidade do filme. Hoje, as modernas ilhas de edição, o acesso imediato aos planos e às infinitas possibilidades de corte de uma mesma cena exigem o mínimo de esforço do montador, abrindo caminho para a descontinuidade.

Vernallis (2008:277) identifica ainda um outro caminho em que as mudanças na narrativa cinematográfica estão ligadas às influências de outras mídias como o vídeo musical. Em sua visão, muitos dos recursos de edição, como a descontinuidade e o corte rápido, estariam vinculados a uma estética do videoclipe. Essa visão é compartilhada por Speckenbach (2000:1). Nela, o cinema se nutre das influências estéticas da televisão e de outras mídias como estratégia de sobrevivência. O corte em descontinuidade seria influências desses meios já acostumados com um discurso mais fragmentado.

Migliorin, em entrevista sobre o ofício de montador no Brasil nos últimos anos, confirma mudanças na natureza do corte:



“Se durante muito tempo conceitos como transparência e opacidade fizeram sentido para trabalhar a relação com espectadores (...) esses conceitos se tornaram frágeis, fracos, impotentes. (...) O montador não é mais aquele que esconde ou que revela o aparato, mas aquele que se relaciona com ele, com efeito que sua presença tem sobre o espectador, um efeito nada formatado, incerto mesmo.” (2005:267)



O autor, fazendo uma reflexão sobre diversos filmes contemporâneos, aponta a necessidade da construção de novos paradigmas para compreender a montagem no cinema e no audiovisual contemporâneo.

Os autores acima instigam o estudo e a reflexão sobre como a natureza desse corte se modifica ao ser utilizada pelo cinema comercial dominante e suas relações com as outras mídias. Ao abordar tais questões relacionadas ao corte, a apresentação propõe pensar as transformações na linguagem do cinema contemporâneo e, por conseguinte, sobre as formas de apreensão e percepção do espectador que evidenciam a construção de uma nova subjetividade.

Bibliografia

FELDMAN, Ilana. O Apelo Realista: Uma Expressão Estética da Biopolítica. Trabalho apresentado ao Grupo de Trabalho “Estéticas da Comunicação”, do XVII Encontro da Compós. São Paulo, 2008.

GEUENS, Jean-Pierre. The Grand Style. In: Film Quarterly, Vol. 58, No. 4, pp. 27-38. Los Angeles: University of California, 2005.

MIGLIORIN, Cezar. Entrevista. In: CAETANO, Daniel (Org). Cinema Brasileiro 1995 – 2005: Ensaios Sobre uma Década. Rio de Janeiro: Azougue, 2005.

SPECKENBACH, Jan. Match Frame and Jump Cut: A Dialectic Theory of Montage in Digital Age. Disponível no site www.keyframe.org/txt/matchframe/ em Março de 2000.

VERNALLIS, Carol. Music Video, Songs, Sound: Experience, Technique and Emotion Eternal Sunshine of the Spotless Mind. In: Screen, 49-3. Oxford: Oxford University, 2008.