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  Título
'Eles não usam black-tie', de Leon Hirszman: uma abordagem intersemiótica
Autor
Laila Rotter Schmidt
Resumo Expandido
A peça 'Eles não usam black-tie', escrita por Gianfrancesco Guarnieri para o Teatro de Arena, SP, em 1958, constituiu importante marco na história das artes cênicas no país, tendo por tema central a organização de uma greve, em torno da qual se desenvolve um conflito ideológico entre pai e filho. O clima progressista vivido pelo Brasil na época de sua montagem, os movimentos de quase um milhão de grevistas em 1952 e a vitoriosa greve geral de 1953 formaram a base de um cenário propício para a aceitação da peça pela crítica e pelo público, sendo especialmente elogiada em função do diálogo que estabelecia entre a realidade social e política vivida na época de sua montagem e a as novas formas de expressão estética que tinham lugar nos palcos. Quando Hirszman realizou a adaptação de 'Eles não usam black-tie' para o cinema, 20 anos mais tarde, a temática grevista estava novamente no centro das discussões sociais e políticas do país, em meio ao surgimento das lideranças sindicais e à efervescência do movimento grevista dos metalúrgicos do ABC que resultaram na fundação do Partido dos Trabalhadores. Esse contexto, ainda que tenha proporcionado grande atualidade ao tema, trouxe novos desafios à produção. Era necessária não apenas a tradução semiótica da linguagem verbal para a audiovisual, mas também toda uma nova ambientação para a história, considerando-se que não apenas a sociedade, mas os próprios movimentos sociais e políticos que se desenrolavam em torno das greves haviam mudado. Com isso em mente, podemos pensar na peça e no filme como duas formas de expressão artística - teatro e cinema - representando dois momentos sócio-políticos importantes da história do Brasil, através de uma mesma trama. O que nos interessa, em particular, é relacionar essas duas obras a partir da forma como cada uma articula elementos poéticos que lhe são específicos ao representar as questões sociais e políticas que se propõem apresentar. Procuraremos analisar como uma obra migra de um sistema semiótico para outro, no sentido desenvolvido por Haroldo de Campos. Na sua formulação, ele se utiliza de conceitos de Roman Jakobson, que também considera o texto poético intraduzível, a não ser em termos de uma “transposição criativa”, uma “tradução intersemiótica”. (1977, p. 72) A tradução de textos artísticos, para Campos, implica uma criação paralela, autônoma, porém recíproca, que traduz não apenas o significado, mas também o próprio signo em sua materialidade; a tradução deve ser leal não ao significado superficial da obra, mas sim ao seu modo de representação e “espírito”. (1987, p. 72) Sob essa luz, pretendemos apontar a reciprocidade entre texto teatral e representação cinematográfica, tendo sempre em mente que as transposições operadas no plano estético são também pautadas pelas questões sociais e políticas que as ensejaram.
Bibliografia

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AUMONT, Jacques. (Org.). A estética do filme. Tradução de Marina Appenzeller. Campinas: Papirus, 1995.

BADER, W. (Org.). Brecht no Brasil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

CAMPOS, Haroldo de. Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora. In: OLIVEIRA, Ana Cláudia de e SANTAELLA, Lucia (Org.). Semiótica da Literatura. São Paulo: Educ, 1987.

ELES NÃO USAM BLACK-TIE, Leon Hirszman, São Paulo, 1981.

GUARNIERI, Gianfrancesco. Eles não usam black-tie. 19a ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

JAKOBSON, Roman. Lingüística e comunicação. Tradução de Izidoro Blikstein e José Paulo Paes. 9a. ed. São Paulo: Cultrix, 1977.

PLAZA, Julio. Tradução intersemiótica. São Paulo: Perspectiva, 1987.

SILVA, Maria Carolina Granato da Silva. O cinema na greve e a greve no cinema: memórias dos metalúrgicos do ABC. Tese de Doutorado. UFF, 2007.