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  Título
A formação protestante de Glauber Rocha em sua cinematografia
Autor
Glauber Brito Matos Lacerda
Resumo Expandido
Neste trabalho, apresentamos reflexão inicial de pesquisa em desenvolvimento no mestrado em Memória: Linguagem e Sociedade. A partir de um estudo das configurações sociais em que Glauber Rocha esteve inserido, investigaremos se a formação protestante do cineasta se reflete na estética de seus três primeiros longas-metragens (“Barravento”, “Deus e o diabo na terral do sol” e “Terra em transe”). Para tanto, utilizaremos a categoria de análise “redes sociais”, conforme Norbert Elias (1994) a concebe.

Segundo o sociólogo alemão (1994), individuo e sociedade são instâncias indissociáveis. Cada sociedade tem suas peculiaridades porque são formadas por indivíduos específicos. Estes, por sua vez, passam por um processo de individualização próprio do meio em que estão inseridos, formado por redes de interdependência entre os indivíduos.

Voltando para alguns pontos da biografia de Glauber, nota-se que o cineasta nasceu em uma família protestante na cidade de Vitória da Conquista (BA) em 1939. Durante a infância, freqüentou a Primeira Igreja Batista da sua cidade natal. Aos nove anos de idade, mudou-se com a família para Salvador onde foi assíduo nos cultos da Igreja Sião até a adolescência. Até os 14 anos de idade, Rocha estudou no Colégio 2 de Julho, instituição presbiteriana localizada na capital baiana. Podemos relacionar a formação do artista com o que Elias (p. 30-31, 1994) diz a respeito da importância da infância para socialização e construção da personalidade: “A criança não é apenas maleável ou adaptável em grau muito maior do que os adultos. Ela precisa ser adaptada pelo outro, precisa da sociedade para se tornar fisicamente adulta”. É curioso que a cinematográfica glauberiana está marcada por elementos que remetem a manifestações religiosas distintas da que o artista recebeu. Os cultos afro-brasileiros e o catolicismo popular são recorrentes nos filmes, e os protestantes não aparecem em sua obra. Porém, é sabido que o cineasta tem uma visão distanciada das demais religiões. Em “Barravento”, por exemplo, o candomblé é posto como um elemento alienador que tolhe as potencialidades revolucionárias da comunidade retratada.

Por outro lado, o cineasta (apud Gomes, p. 485, 2002) admitiu, em algumas ocasiões, a importância da bíblia em sua formação, evidenciando sua peculiar concepção do cristianismo. Afinal, é uma característica do protestantismo a autonomia dos fiéis no exercício da fé. Em vez de se apegarem a um vasto universo simbólico, como os católicos, a leitura direta das escrituras sagrados é a base das experiências religiosas dos protestantes (Aguiar, 2007). Em carta enviada para mãe, no início da década de 70, confessou: “ (...) toda minha moral é a moral da Bíblia, por isto a senhora me ensinando a Bíblia me educou maravilhosamente”. Em outra ocasião, numa carta enviada para Paulo César Saraceni, em março de 1963, declarou (apud Ventura, p. 25, 2000): “Estudei para ser pastor protestante até os 13 anos de idade. Sei a Bíblia de cor. Li os cânticos de Salomão e os salmos de Davi e trago a angústia da alma dos judeus”.

Embora Glauber Rocha esteja longe de utilizar seus filmes como panfletos de uma fé religiosa, quando ele afirma ter incorporado uma moral bíblica, evidencia que a mesma compõe o habitus dele e, por senguinte, supomos que a dita moral está projetada nas películas que realizou. Para Bourdieu (p. 201-202, 2005), o habitus se define nas relações entre a subjetividade e o meio que o indivíduo está inserido. Então, trata-se do “princípio unificador e gerador de todas as práticas” (Bourdieu, p. 201-202, 2005).

Portanto, pretendemos ir mais adiante com a pesquisa, na tentativa de compreender como se configurava as redes sociais que Glauber Rocha estava inserido e, a partir de uma análise fílmica dos primeiros longas-metragens do diretor, investigar se existem evidências da formação protestante de Rocha nas películas.

Bibliografia

AGUIAR, Itamar Pereira. Do púlpito ao baquiço: religião e laços familiares na trama de ocupação do Sertão da Ressaca. São Paula: Puc, 2007.



BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. 6ª Ed. São Paulo: Perspectiva, 2005



ELIAS, Norbert. A sociedade dos indivíduos. 1ª Ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.



GOMES, João Carlos Teixeira. Glauber Rocha esse vulcão. 1ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, 635p.



VENTURA, Tereza. A poética polytica de Glauber Rocha. 1ª ed. Rio de Janeiro: Funarte, 2000.