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  Título
A estigmatização e contraestigmatização da chanchada na mídia escrita
Autor
André Luiz Machado de Lima
Resumo Expandido
No decorrer das décadas de 40 a 70, a chanchada brasileira foi fartamente criticada pela imprensa, um dos segmentos da elite cultural do país. Artigos publicados em jornais e revistas da época a estigmatizaram de subproduto cinematográfico, principalmente em razão dos baixos orçamentos empregados nas suas produções e devido à incompatibilidade dos filmes cômicos com a idealização de um cinema nacional sério. O estigma negativo da chanchada – cuja etimologia deriva do termo espanhol chancho (porco ou sujo; peça teatral sem valor, destinada apenas a produzir gargalhadas) ou do italiano cianciata (discurso sem sentido, uma espécie de arremedo vulgar, argumento falso) – possivelmente originou-se da mídia escrita. O certo é que a chanchada já nasceu estigmatizada, pois o teatro de revista, gênero que a antecedeu, foi marcado negativamente pela imprensa desde o século XIX.

Segundo Robert Stam (2000), o estigma ao qual vem sendo submetida a chanchada no contexto social, ao longo dos anos, provém do preconceito, da ideia incrustada de cisão entre cultura alta e baixa: “As paródias populares burlescas tipo chanchada têm sido objeto de uma série de preconceitos estratificados: em relação à comédia, como forma ‘inferior’ (preconceito que encontramos pelo menos desde Aristóteles), em relação à intertextualidade explícita (considerada derivativa e parasitária), em relação a trocadilhos e jogos de palavras (proverbialmente considerados como ‘a forma mais baixa de humor’), em relação a palhaçadas físicas e pancadarias (consideradas grosseiras e vulgares) e finalmente em relação ao público, popular de classe baixa. Esses preconceitos têm em comum a noção de alto/baixo, superior/inferior (...)”.

Em 1952, o crítico Salvyano Cavalcanti de Paiva definia a chanchada, no artigo “O cômico no cinema brasileiro”, assinado na revista A Cena Muda, como um “[...] disparate vulgar combinado a um pouco de sexo e frases de duplo sentido (...), influência do baixo teatro, da burleta e do radiologismo mais ruim”. Eis um exemplo do estigma associado aos preconceitos e estereótipos arraigados na sociedade dos anos 50.

Com efeito, a partir da segunda metade dos anos 70, a chanchada foi reconhecida como gênero cinematográfico cômico-popular por uma nova geração de críticos e teóricos, revelando qualidades inconcebíveis para os intelectuais das décadas anteriores, como o discurso de crítica social e a estética elaborada em torno da paródia, do pastiche, da ironia e da sátira. Apesar dessa contraestigmatização, a chanchada permanece, até os dias atuais, estigmatizada pela mídia escrita? Se ainda se encontra nesta posição, quais são as diferenças entre o estigma das décadas anteriores e o estigma posterior às críticas positivas dos revisionistas? Até que ponto a chanchada livrou-se do estigma de gênero fílmico trivial, permeado de humor ingênuo e prosaico? Como o termo chanchada é empregado pela mídia escrita hoje em dia?

Este trabalho irá analisar trechos de nove artigos, dos quais cinco publicados na revista A Cena Muda nos anos 40 e 50, e quatro veiculados, entre 2001 e 2004, em O Estado de S.Paulo, Portal Estado, Jornal do Commercio e Site UERJ. Os discursos de A Cena Muda, do Jornal do Commercio e Site UERJ abrigam discursos “estigmatizantes”, enquanto as matérias veiculadas em O Estado de S.Paulo e Portal Estado revelam textos “antiestigmatizantes”.

Para fundamentar a noção de que o discurso midiático escrito estigmatizou, contraestigamatizou – ou ainda estigmatiza a chanchada – tomamos como referência teórica Norbert Elias e J.L. Scotsen, que discorrem sobre a relação entre estabelecidos e estigmatizados (outsiders); Stuart Hall e Tomaz T. da Silva, que abordam a construção social da identidade e diferença, além dos conceitos de Mikhail Bakhtin sobre os gêneros do discurso no cinema e carnavalização da cultura. Este trabalho fundamenta-se também em autores revisionistas da chanchada, como Alex Viany, Jean-Claude Bernardet, Robert Stam, entre outros.

Bibliografia

AUGUSTO, Sérgio. Este mundo é um pandeiro: a chanchada de Getúlio a JK. São Paulo: Companhia das Letras/Cinemateca Brasileira, 1989.

BAKHTIN, M. M. Dialogismo e construção do sentido/Beth Brait (Org.). Campinas: Editora da Unicamp, 1997.

BERNARDET, Jean-Claude. Trajetória crítica. São Paulo: Polis, 1978.

CATANI, Afrânio M. e SOUZA, José I. de Melo. A chanchada no cinema brasileiro. São Paulo: Brasiliense, 1983.

ELIAS, Norbert e SCOTSON, John L. Os estabelecidos e os outsiders. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000, pp. 19-50.

HALL, S. Da diáspora – Identidades e mediações culturais (org. Liv Sovik). Belo Horizonte: UFMG, 2003.

ORTIZ, Renato. Cultura Brasileira e Identidade Nacional. 5ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.

SILVA, T. T. (org.). Identidade e diferença. A perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis: Vozes, 2000.

VIANY, Alex. Introdução ao Cinema Brasileiro. 2ª ed. Rio de Janeiro: Alhambra/Embrafilme, 1987.