/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
Título: O viés subjetivo do não-ficcional silencioso no Brasil
Autor
Maria Guiomar Pessôa Ramos
Resumo Expandido
Uma composição fílmica consciente vista a partir de certas estratégias, como o uso de determinada angulação ou o plano em movimento, pode ser encontrada em filmes de Thomas Reis, Silvino Santos ou Rodolfo Lustig e Adalberto Kemeny, de acordo com Hernani Heffner, em Vagas impressões de um objeto fantasmático. Já as opções de linguagem dos filmes de cavação são pensadas mais em função de seu perfil institucional ou de encomenda. Quero trabalhar aqui com esses não-ficcionais de cavação do período silencioso, destacando, além de sua demanda institucional, justificada pelo poder público que as financiava, outros procedimentos fílmicos, como a possibilidade de um viés subjetivo. O enfoque subjetivo surge aqui relacionado à demarcação do diretor, de sua equipe ou do equipamento utilizado, em meio às situações filmadas. Como base para este estudo propõe-se as seguintes produções: “A real nave italiana no Rio Grande do Sul”, 1924, “Veneza americana”, 1925, Pernambuco-Film, “O príncipe herdeiro da Itália em terras do Brasil”, 1924, A. Botelho Film, “Viagem dos reis da Bélgica ao Brasil”, 1920, realizada pelo Service Photographique et Cinematographique belga, durante a passagem dos reis por nosso país. Na produção belga, por exemplo, o cinegrafista e sua câmera, logo nas primeiras imagens, se misturam à realeza, conseguindo aparecer com destaque, nos planos organizados para serem representativos da entrada dos reis no navio. Em outro momento, o cinegrafista aparece abraçado ao aviador Edu Chaves, como se competisse com o objeto filmado, a atenção do espectador. Já em “O príncipe herdeiro da Itália em terras do Brasil”, a presença da produtora é mencionada através dos intertítulos, de maneira formal e explícita, criando uma relação entre o objeto e aquele que o filma: “... S.Alteza posa especialmente para A.Botelho Film, entre a illustre família Calmon e os hospedes e convivas de S.Excia, o Governador...” ou, mais adiante, “A bordo do S. Giorgio S.Alteza e S. Excia. O Governador concedem-nos a honra de posar para nossa objectiva”. Em “Veneza americana”, no bonde à beira mar, a subjetiva do ponto de vista do veículo em movimento (procedimento comum nesses filmes), é aqui anunciada destacando a presença de um integrante da equipe; chegamos a ver seu vulto, (e sabemos ser ele, pois isso é mencionado pelos intertítulos), em pé à frente do veículo. Na seqüência seguinte, no parque de diversões, o fotógrafo é novamente citado, também pelo intertítulo e plano subjetivo: “também nosso operador cinematográfico teve o infantil desejo de experimentar as emoções de um voo no aeroplano ... quis subir na roda gigante... quis conhecer o túnel do amor... porém as emoções foram demasiadas! o operador e a maquina chegaram a perder o juízo quando quiseram apanhar novo aspecto do publico ... eis o resultado que tiveram...”. Descrever e apontar para esses procedimentos deve servir de base para algumas reflexões, como a do porque da inserção do diretor-cinegrafista. A existência desse espaço pode se justificar em função da publicidade das produtoras responsáveis por esses filmes, já que consta serem produções de encomenda. Mas, isso não explica a construção irônica, textual ou por imagens, de algumas dessas inserções. E essa pequena porção de participação do cinegrafista dentro do filme desaparece com o documentário clássico, constituído a partir de John Grierson? A análise será do tipo comparativa, de maneira a estabelecer a partir dos trechos fílmicos escolhidos, não só os momentos em que podemos enxergar esses procedimentos diferenciados, como também outros posicionamentos de câmera e enquadramento, pensados em função de ações que se repetem, mas que são trabalhadas de forma totalmente distintas, como por exemplo as diferentes formas de se abordar as entradas e saídas de carros, de carruagens, de navios, etc. Trazer a presença de viés subjetivo de maneira a rever e refletir sobre o que seria esse tipo de filme dentro da tradição da história do documentário
Bibliografia

Heffner, Hernani. Vagas impressões de um objeto fantasmático. Livro apostila-apostila do Curso de História do Documentário Brasileiro.

NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. Campinas, São Paulo. Papiros, Editora. 2005.

RAMOS, Fernão. Teoria Contemporânea do Cinema: Pós-estruturalismo e filosofia analítica (vol 1). São Paulo. Editora SENAC, 2005.

RENOV, Michael. “Investigando o Sujeito: uma Introdução”. In: MOURÃO, Maria Dora e LABAKI, Amir. O Cinema do Real. São Paulo. Cosac Naify, 2005

TEIXEIRA, Francisco Elinaldo de (org.). Documentário no Brasil, tradição e transformação, São Paulo. Summus, 2004.