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  Título
Eu me lembro: vozes em descompasso no cenário pós-colonial
Autor
Taís Corrêa Viscardi
Resumo Expandido
Quando se pretende discutir identidade na dita pós-modernidade não podemos obliterar a eficácia das narrativas cinematográficas, tendo em vista que contemporaneamente, dada a emergência dos meios de comunicação de massa, o cinema se configura como um importante espaço plasmação e discussão das narrativas identitárias.

O estudo dos textos identitários sobre a Bahia tanto no âmbito da literatura como no da música ou do cinema e ainda também no campo da produção midiática local, evidencia a herança cultural de matriz africana como traço singular da cultura baiana. Entretanto, embora a negritude tenha sido apropriada pelo discurso cultural hegemônico na Bahia, não devemos perder de vista as tensões no que se referem às relações raciais presentes no Estado.

Desse modo, podemos perceber que no texto identitário baiano, o negro é tecido a partir da sua alteridade, sendo configurando tanto como objeto de desejo como de repulsa. Essa configuração estereotipada acaba por gerar o que Florentina Souza (2005) chama de “vivência neurotizante”, na qual o negro no seu cotidiano “precisa estar contestando e lutando contra a imagem de si mesmo, cristalizada no imaginário da sociedade e até em seu próprio imaginário”, buscando deslocar e romper as estruturas discursivas do imaginário ocidental branco, que o coloca no lugar do Outro.

Em seu estudo empreendido na década de 80 sobre “O negro brasileiro e o cinema”, João Carlos Rodrigues (1988) elenca doze estereótipos recorrentemente usados para representar os negros na produção cinematográfica brasileira. Embora a discussão de Rodrigues seja um importante estudo sobre as representações do afro-descendente, deve-se notar, conforme sugere Robert Stan (2008), que “... a preocupação exaustiva com imagens, sejam estas positivas ou negativas, pode levar a uma espécie de essencialismo, já que o crítico reduz uma diversidade complexa de representações a um conjunto limitado de estereótipos”. Portanto, além de identificar os estereótipos, devemos também perceber a força produtiva que reside na sua ambivalência, pois ao mesmo tempo que cristaliza uma imagem, acaba por dar visibilidade a mesma, colocando em cena os conflitos que circundam o entendimento do objeto estereotipado.

Diante desse contexto, o trabalho em questão pretende promover uma reflexão acerca das imagens de afro-descendência presentes no filme Eu me lembro (2005), de Edgard Navarro, buscando evidenciar e contrastar as tensões e negociações pertinentes às relações raciais na Bahia e os discursos que as representam.

Situado entre os anos de 1950 e 1970, a película assume um tom memorialista ao retratar os conflitos de uma geração, marcada pelo movimento da contra-cultura. O diretor conduz a narrativa fílmica no que se refere aos personagens negros no ímpeto de problematizar as relações raciais na Bahia, apontando para a permanência dos valores coloniais nessa sociedade.

Bibliografia

HALL, Stuart. Quem precisa da identidade?. In: Identidade e Diferença: a perspectiva dos Estudos Culturais. SILVA, Tomaz Tadeu da (org.); HALL, Stuart; WOODWARD, Kathryn. Petrópolis: Editora vozes, 2007.

MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra. Petrópolis: Vozes, 1999.

OLIVEIRA, Marinyze Prates. Olhares roubados: cinema, literatura e nacionalidade. Salvador: FAPESB/Quarteto, 2004.

RODRIGUES, João Carlos. O negro brasileiro e o cinema. Rio de Janeiro: Globo: Fundação do Cinema Brasileiro – MINC, 1988.

SOUZA, Florentina da Silva. Afro-descendência em Cadernos Negros e Jornal do MNU, Belo Horizonte: Autêntica, 2005.

STAM, Robert. Multicultiralismo Tropical: Uma História Comparativa da Raça na Cultura e no Cinema Brasileiros. Tradução de Fernando S. Vugman. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008.