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  Título
Imagens de baixa frequência-Filmes Vladimir Carvalho de 1960 a 1975
Autor
Danielle Freire de Souza Santos
Resumo Expandido
Nosso trabalho realiza um panorama sobre o início da carreira do diretor Paraibano Vladimir Carvalho. Fizemos um enfoque em seus filmes sobre o Nordeste, e limitamos nossa análise aos documentários do período entre o início da década de 1960, quando ainda residente em seu estado natal, a Paraíba, até metade da década de 1970, já morando em Brasília, lugar onde vive até o momento.



Observamos suas principais influências no pensar e fazer cinema, além de seus diferentes olhares e personagens sobre o Nordeste, desde a concepção de Romeiros da Guia (1962) até o abstrato Pedra da Riqueza (1975).



Vladimir observa o Nordeste como uma possibilidade mutante, por conseguinte sob diferentes formas estéticas. A trajetória de vida desse documentarista migrante reflete na interpretação do lugar, nas formas de abordagem em seus vários projetos cinematográficos. Contrastes sociais parecem ser pauta importante para o cineasta, seja em relação ao contexto nacional ou à situações dentro da própria região.



Constatamos a visão de vários nordestes em seus trabalhos- o religioso, o político, o de economia emergente e decadente, o migrante, o urbano e o rural- uma região cheia de diferenças na formação de suas identidades.





Aliás há mais de dois Nordestes e não um, muito menos o Norte maciço e único de que se fala no Sul com exagero de simplificação. As especializações regionais de vida, de cultura e de tipo físico no Brasil estão ainda por ser traçadas debaixo de um critério rigoroso de ecologia ou de sociologia regional, que corrija tais exageros e mostre que dentro da unidade essencial, que nos une, há diferenças às vezes profundas. (FREYRE, 2003 p.46)





Desta maneira é o Nordeste visto nos filmes aqui apontados. Seus habitantes, diversos em sotaque, trabalho e aparência, são aproximados ao espectador na tentativa de ilustrar e abordar toda a terra que lhes rodeia e são originários. O Nordestino em constante movimento à beira da sociedade, “é um marginal da sociedade, um marginal sócio-econômico” (CARVALHO,1994 p.44).



Experiências profissionais e pessoais ao longo de sua trajetória como cineasta contribuíram para uma constante mudança estética em seus filmes. A imagem forte procura uma nova realidade a partir do que é retratado, mas sem deixar de lado os fatos que lhe chamaram a atenção em primeiro lugar.





Talvez involuntariamente, ao longo da minha carreira nordestina, elaborei um tipo de imagem oscilante, de baixa freqüência, sobretudo nos filmes ampliados de 16mm para 35mm. A relativa imagem, vira uma espécie de terceira ou quarta via do que seja realidade. Termina por espelhar uma coisa meio fantasmagórica – ou melhor, pantasmagórica – como os fogos fátuos no limite entre o natural e o sobrenatural. A imagem como algo que se evola. (CARVALHO apud MATTOS, 2008p.150)





Na escolha exclusiva pelo documentário, valoriza soluções baseadas em experiências de vida. Equipe reduzida leva ao que já chamou de filme possível, no entanto a preocupação estética não se perde no processo criativo. A imagem de “baixa freqüência” é um instrumento crucial em suas intenções de retratar o Nordeste e seu povo.



Traduz às telas de maneira aparentemente simples suas temáticas, sem segurar-se muito na entrevista, sua idéia é recorrer o máximo possível à imagem. Na procura das aparências, organiza seu mundo diegético e nele as desvenda, as organiza na possibilidade de se transformarem “numa epopéia, num romance – ou tragédia.” (CARVALHO apud MATTOS, 2008 pp. 287-288).



Parte de opções ideológicas expostas desde a escolha da temática, até a montagem final, é claro, em todo que momento à presença do espectador está a “terceira ou quarta via do que seja a realidade”.



Na produção deste documentarista, temas, em sua maioria, críticos e fortes, são concebidos em filmes de longa ou curta duração de maneira diversa. Intenciona tirar quem assiste de sua zona de conforto, mas também interessar, e às vezes encantar,pelo lirismo escondido em suas temáticas sociais.
Bibliografia

ALBUQUERQUE Jr. , Durval Muniz. A invenção do Nordeste e outras artes. São Paulo: Cortez, 2001;



AUMONT, Jacques. A imagem; tradução Estela dos Santos Abreu. Campinas: Papirus, 1993;



BERNARDET, Jean Claude.Cineastas e Imagens do Povo. São Paulo: Companhia das letras, 2003;



CARVALHO, Vladimir. O documentário com autobiografia. São Paulo: 1994. Cinemais, Rio de Janeiro, p 7-58, 14 mar. 1999. Entrevista concedida a Amir Labak;



DA-RIN, Silvio. Espelho Partido - tradição e transformação do documentário. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2004;



FREYRE, Gilberto. Nordeste. Rio de Janeiro: Record, 1989;



HALL, Stuart. A identidade cultural na Pós-Modernidade. Tradução de Tomaz Tadeu da Silva, Guaracira Lopes Louro. Rio de Janeiro: DP&A, 2006;



JOLY, Martine. Introdução à análise da imagem. Tradução de Marina Appenzeller. Campina: Papirus, 2008;



MATTOS, Carlos Alberto. Vladimir Carvalho - pedras da Lua e pelejas no planalto. São Paulo: Imprensa Oficial, 2008;