/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
O filme etnográfico entre o princípio de razão e o princípio de prazer
Autor
Marcius Freire
Resumo Expandido
Jean Ullmo, em La pensée scientifique moderne, afirma que “um estudo sobre o pensamento científico do século 19 e da primeira metade do século 20 deve ter como centro de perspectiva a revelação sobre a física; e isso não é uma afirmação de hierarquia, mas uma constatação de fato. Naquele período, as matemáticas perdem sua primazia e a quase-exclusividade que tinham nas ciências da época precedente. Outras ciências, tais como a biologia, a psicologia, a sociologia, a economia, se desenvolvem, ou mesmo se criam, buscam uma colheita abundante e vêem o futuro se abrir diante delas; mas somente a ciência da natureza inorgânica, a física, é suficientemente avançada e elaborada para oferecer um abrigo ao pensamento que toma a ciência como objeto” (Ullmo, 1969: 15).

Vemos que as humanidades começam a balbuciar no berço das ciências quando estas se preparam para abandonar suas referências e a encampar outras, pois novos paradigmas colocavam em questão as verdades até então estabelecidas. Nesse momento, a ciência se torna extremamente complexa, divide-se em mais campos do conhecimento e já não permite que não-especialistas façam incursões em suas esferas. Esse divórcio vai de par com o aparecimento de duas novas formas de registro que vêm à luz justamente em razão do progresso científico e irão exercer enorme influência nas artes e nos meios de comunicação: fotografia e cinema.

A complexidade das proposições científicas traz consigo a dificuldade em traduzir os resultados obtidos em linguagem corrente. Segundo Simone Vierne, em artigo sobre as relações entre ciência e literatura, nasce então uma categoria de escritores que se empenham em colocar o discurso científico ao alcance do profano. Pois a ciência fascina porque parece misteriosa e também porque modifica, por suas aplicações práticas, e a uma velocidade sempre crescente, as circunstâncias que envolvem o homem (Vierne, 1985: 81).

Assim como esses autores da segunda metade do século 19 procuraram colocar a ciência à altura do homem comum, a partir da segunda metade do século 20 são os meios audiovisuais que vão cumprir esse papel. Tão logo estes novos meios vieram a público, especialistas das ciências do homem deles se apossaram para utilizá-los como instrumentos de registro e divulgação de suas pesquisas. O mesmo aconteceu com os artistas, que criaram novas formas de representação com instrumentos de registro do mundo histórico, tanto imagens fixas quanto animadas.

A partir de então, o cinema, sistema que nos interessa, se viu dividido entre uma “função de conhecimento” e uma “função estética”; o que levou alguns a pensarem que a revisão da classificação das artes ocorrida no Renascimento, que trouxe consigo o início do distanciamento progressivo entre arte e ciência que vai culminar com aquilo que alguns definem como o verdadeiro divórcio entre os dois saberes, estaria sendo revisitada.

Curiosamente, os protagonistas desse divórcio parecem ter começado um processo de reconciliação que tem produzido bons resultados. No campo das ciências humanas a antropologia, por exemplo, tem rediscutido com vigor alguns de seus preceitos científicos, notadamente a “objetividade” de seus discursos. Segundo David MacDougall, “os antropólogos estão mais conscientes de que também estão contanto estórias (...), pois freqüentemente a etnografia moderna se traduz em estórias extremamente complexas de outras vidas, ou estórias de encontros antropológicos no campo” (MacDougall, 1992).

Evidentemente, não estamos voltando à época pré-renascentista, quando “não existia fronteira entre o poeta, o filósofo e o físico, pois todos tinham a missão comum de dar uma explicação do mundo” (Vierne, 1985: 80), mas vivemos um entrelaçamento cada vez mais evidente entre arte e ciência que se traduz em qualquer de seus sistemas de representação, seja ele escrito, imagético ou audiovisual.

Nosso objetivo é discutir até que ponto, em razão desse entrelaçamento, a ética está cedendo passo à estética no filme etnográfico.
Bibliografia

Downing, Lisa and Saxton, Libby, Film and Ethics. Foreclosed Encounters, London and New York: Routledge, 2010.

Geertz, Clifford, Works and lives. The anthropologist as author, Stanford: Stanford University Press, 1988.

Jonas, Hans, O princípio responsabilidade. Ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Rio de Janeiro: Contraponto/Puc-Rio, 2006.

Mac Dougall, David, “Whose Story Is It?”, 1992, in: Crawford, Peter I. & Simonsen, Jan K. (eds.), Ethonographic Film Aesthetics and narrative Traditions. Aarhus: Intervention Press.

Ruby, Jay, “An anthropological critique of the films of Robert Gardner”, in: Journal of Film and Video, Vol. 43, n. 4, Winter 1991.

Ullmo, J., Le pensée scientifique moderne, Paris: Flamarion, 1969.

Vierne, Simone, “Ligações tempestuosas: a ciência e a literatura”, in: Vierne, Simone (ed.), A Ciência e o imaginário, Brasília: Editoria da UnB, 1985.

Valcárcel, Amelia, Ética contra estética, São Paulo: Editora Perspectiva/Sesc, 2009.