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  Título
Construção e implicitação da recepção na narrativa ficcional da TV
Autor
Carol do Espírito Santo Ferreira
Resumo Expandido
Partimos da idéia de que as narrativas televisivas, assim como as demais formas de expressão audiovisual, concluem seus processos de construção de sentido no encontro com o universo da recepção, em particular no que toca aos textos ficcionais. Em função disso, a proposta que ora apresentamos procura elucidar o que seria um modo de recepção inerente ao texto televisivo, tanto no que se refere a um processo de recepção quanto no que tange à identificação de uma instância receptora sugerida - implícita - no próprio texto televisivo. Para que melhor se materialize essa discussão, a minissérie televisiva O Auto da Compadecida, dirigida por Guel Arraes e exibida pela Rede Globo de Televisão em 1999, a nós servirá como caminho para a revelação de um percurso de leitura indicado pelo próprio texto e das marcas de um espectador solicitado pela ficção televisiva. Não se pretende, pois, traçar o perfil definitivo desse que seria um receptor textualizado, e nem forjar um modelo através do qual seja possível olhar para qualquer texto ficcional televisivo. Interessa-nos identificar a maneira como essa estrutura de investimento de expectativas de atribuição de sentido, inerente ao texto, manifesta-se, convocando o receptor e conduzindo a leitura, de modo a levar alguns sentidos potenciais à concretização no ato da recepção.

Atentamos para o fato de O Auto da Compadecida não ser uma obra originalmente concebida para a televisão. O programa, em quatro episódios, resulta de uma transcriação – que o senso comum chama simplesmente de adaptação – da peça quase homônima, de autoria de Ariano Suassuna, Auto da Compadecida. Esse fato não chega a constituir, entenda-se, um problema para a nossa análise; pelo contrário, consideramos que esta minissérie seja, por esse motivo, exemplar bastante representativo de boa parte das minisséries produzidas pela televisão brasileira, as quais sempre mantiveram forte ligação com textos literários, sobretudo os de nossa própria literatura. Não obstante não tencionemos aqui explorar o movimento de tradução entre uma obra e outra, não ignoraremos certas características presentes na peça e que perduram no programa de televisão. O universo de referências que a peça suscita, portanto, permanecerá como pano de fundo para nossas reflexões, inclusive porque se pode considerar que a transposição entre linguagens manteve-se bastante fiel à peça teatral e ao estilo do próprio Suassuna.

Nossa opção metodológica foi adotar como referencial o modelo de leitor implícito, postulado por Wolfgang Iser. Esse modelo nos servirá para a construção da idéia de uma recepção implícita, inerente ao texto da minissérie O Auto da Compadecida. Ao usarmos o termo recepção, estaremos aqui explorando a duplicidade que ele sugere: a recepção será por nós entendida tanto como processo quanto como instância. Buscamos, pois, tanto as marcas de uma leitura sugerida quanto as pistas de um leitor por ela engendrada.

Dessa maneira, em primeiro lugar nos ateremos a uma proposta de leitura, a indicações de interpretação subjacentes à estrutura textual do programa de televisão. Para tanto, não nos fixaremos apenas no texto imagético ou somente no texto sonoro da minissérie, já que, para a construção do texto televisivo, som e imagem estão inextricavelmente entrelaçados, explicando-se mutuamente. Destarte, procurar ver como um sintagma audiovisual produz, na associação entre som e imagem, essa implicitação de uma leitura parece-nos muito mais frutífero do que tentar dissociar um texto de outro. Nossa intenção é, portanto, observando as imagens, os diálogos e os demais recursos sonoros d’O Auto, extrairmos algumas sugestões de sentidos que emergem da trama de seu texto, como indicação de uma concretização de significados possíveis.
Bibliografia

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BERGSON, Henry. O riso: ensaio sobre a significação do cômico. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1983.

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