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  Título
Zazie no Metro: a cena e o discurso da cor.
Autor
Maria Noemi de Araujo
Resumo Expandido
A adaptação do livro “Zazie no metrô” (1959) de Raymond Queneau para o filme homônimo de Louis Malle, em 1960, ganhou destaque como objeto de pesquisa em psicanálise nestes dois últimos anos, não por acaso. Lacan em seu Seminário de 1958-1959 cita a personagem Zazie para discutir naquele contexto contemporâneo de Paris a noção de cinismo em psicanálise. Esta citação remete ao conceito do tema geral do IVº Congresso Mundial de Psicanálise (Paris, 2010): Semblants et Sinthome.

Em seu livro De la naturaleza de los semblantes (1995), Jaques-Alain Miller retoma a citação de Lacan para tratar a noção de cinismo feminino como uma posição subjetiva da mulher. Ou ainda o cinismo como uma posição subjetiva que despreza os ideais da cultura. Assim, Zazie representa no discurso psicanalítico certo desprezo que o ser humano pode ter pelos “semblantes” necessários para se fazer laços sociais. Nesta atualização a personagem aparece como uma máquina de perfurar os “semblantes” ao tumultuar o mundo de cada um. Provocada, Zazie provoca outros numa perspectiva de preservação da cultura, nunca aniquilando-a.

A partir da noção de arte como ruptura, Marie-Hélène Brousse destacou a noção de psicanálise contemporânea como algo que está ao lado da arte e não mais da ciência como seu inventor a colocava na Áustria (na virada do século XX). Raymond Queneau produz ruptura na língua francesa, inovou ao subtrair o excesso de letras inúteis, fazendo uma “transcrição fonética”. Segundo Michel Marie, no filme Malle faz uma homenagem à Nouvelle Vague, captando a vida da rua das cidades, pois antes disso, as cenas eram todas feitas em estúdios. E ali, como um “quebrador de imagens”, segundo Jacques Belmans, desmistifica a cidade, tornando-a ridícula, sem intrigas. Ao se movimentar com o seu tio pelas ruas parisienses, ao se movimentar pela cidade, a garota assumiria o ponto de vista do realizador.

Tomo a cor laranja para discutir o recurso usado pelo diretor como algo que recobre o laço social que a personagem vai costurando pelas suas andanças: a menina chega em Paris para passar o final de semana e retorna para sua cidade com a mesma blusa. Esta cor da blusa de Zazie vai fazendo laços com diversos outros detalhes de muitas situações e/ou personagens. Tomarei este recurso usado por Malle como um elemento que alinhava o discurso da imagem perpassando a narrativa do filme, como um “semblante” a serviço da criação do laço. No coração da circulação da palavra, a própria cor, ao tomar o lugar de semblante, faz semblante de laço, pelo teor de suas interações em cena. Do ponto de vista do cinema, essa cor é usada como recurso narrativo. Então, no filme, a cor laranja funciona como a grande mediadora do simbólico com o imaginário em relação ao real, do ponto de vista da psicanálise.
Bibliografia

AUMONT, J. Le cinéma et la mise en scène. Paris, Armand Colin, 2006.

AUMONT, J. L'Oeil interminable: Cinéma et Peinture. Paris: Seghiers, 1989.

BELMANS, J. La ville dans le cinéma. Bruxelas: A. De Boeck, 1977.

GAGNEBIN, M. (org.) Cinéma et inconscient. Seyssel: Champ Vallon, 2001.

KOTARA, J. "Lien Social" in: Semblants et Sinthome. Paris: ECF, 2009.

LACAN, J. Escritos. tr. V. Ribeiro. Rio: Jorge Zahar, 1998.

MARIE, M. La Nouvelle Vague: Une école artistique. Paris: Nathan, 1997.

MILLER, J.A. De la naturaleza de los semblantes. Buenos Aires: Paidós, 2002.

QUENEAU, R. Zazie no metrô. tr. P. Werneck; posf. R. Barthes. São Paulo: Cosac Naify, 2009.