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  Título
Éden digital: a evocação de Bosch, Munch, Millais e Tarkovsky em ‘Antichrist’
Autor
Denise Lopes
Resumo Expandido
‘Antichrist’ (2009), do dinamarquês Lars Von Trier, lança mão de novas tecnologias audiovisuais e estabelece um ‘entre-imagens’ capaz de evocar num mesmo Éden referências explícitas a obras de Hieronymus Bosch, John Everett Millais e Edvard Munch. Dedicado a Andrei Tarkovsky (1932-86), o longa traz ainda homenagens à estética de cunho psicanalítico do cineasta russo, que condensava suspense e apavoramento a partir de fartos 'slow motions' e efeitos especiais.

Com captação digital de última geração e abusando de poderosos zooms e efeitos, Trier cria uma atmosfera híbrida que ora se aproxima da linguagem da animação, ora se assemelha a vídeo-arte, ora lembra técnicas de documentários e de programas transmitidos em tempo-real em forma de jogos de sobrevivência, ora se remete à 'forma-cinema'.Anamorfoses, sombreamentos, fusões, sobreposições, exacerbação de sons como que captados diretamente, personagens que levitam e até bichos falantes são alguns dos recursos que o mentor do movimento Dogma de 1995, que primava pelo despojamento da técnica, cria para dar verossimilhança à história de um casal, em especial da mulher, que entra em crise após a morte do filho.

A associação pictórica mais óbvia em 'Anticrhist' se dá com o tríptico ‘Jardim das Delícias’ (1500-5), de Bosch. A cena de sexo ao pé de uma árvore coalhada de outros corpos entrelaçados por suas raízes _ numa possível representação da Árvore da Vida, que não por acaso é a imagem do cartaz do filme _, faz analogia direta às cores e formas do purgatório da terceira e última parte da obra de Bosch, que refaz a simbologia do Éden da tradição cristã. No Éden _ lugar temido pela mulher (Charlotte Gainsbourg) e para onde ela é levada pelo marido (Willem Dafoe) para expiar seus medos/culpas/pecados, numa referência direta ao Paraíso, no qual Adão e Eva foram criados e onde num ato de desobediência comeram o fruto proibido _ a dicotomia bem e mal se expressa de várias formas.

‘Ofélia’ (1851-2), quadro mais famoso do pintor inglês John Everett Millais, inspirado na namorada suicida de 'Hamlet' de Shakespeare, é outra referência clara do filme. Embora focada de ângulos e propostas diferentes, a imagem da mulher trágica, que foi predominante na pintura romântica, está presente de forma similar em 'Antichrist'. Se na pintura de Millais, a mulher enquadrada meio de lado flutua na água em meio a uma densa vegetação que se funde com o seu corpo e a cor de seu vestido, no longa, o objetivo declarado é exatamente que a mulher se deite na relva e se misture ao verde. Enquadrada do alto, em posição central, seu corpo se emaranha nas plantas. A posição dos braços denotando algum erotismo e o semblante melancólico e de algum espanto não deixam dúvidas na semelhança pretendida.

Já a referência a 'O Grito' (1893), do norueguês Edvard Munch, uma das obras mais representativas do movimento expressionista, está presente a partir de uma anamorfose criada no rosto da mulher, que se contorce. A obra, amplamente citada por Trier em suas entrevistas sobre o filme, bem como o livro 'O Anticristo', escrito por Friedrich Nietzsche em 1888, uma das mais ácidas críticas ao cristianismo, foram, segundo o próprio Trier, duas fortes influências em 'Antichrist'.

Todas as associações criadas por Trier em 'Antichrist', muitas vezes apresentadas em forma de sonho, só se tornaram possíveis graças à linguagem digital. De acordo com Raymond Bellour, somente o vídeo tem a propriedade de fazer atravessar, de unir o antigo e o novo, o fora e o dentro, o real e o virtual... Nesse lugar de um 'entre-imagens', Trier promove gratas correlações que nos fazem pensar na pergunta de Jacques Amount, em 'O olho interminável [cinema e pintura]': estaria na pintura, na capacidade de pintar a tela ou de fazer com que esta incorpore de alguma forma as melhores expressões destas construções no tempo, o último recurso capaz de trazer de volta ao cinema algum resquício de originalidade, de reinvenção e de importância no cenário das artes?
Bibliografia

AMOUNT, Jacques. O olho interminável [cinema e pintura]. São Paulo: Cosac & Naify, 2004.

AMOUNT, Jacques. A imagem. São Paulo: Papirus, 1993.

BELLOUR, Raymond. Entre-imagens. Campinas: Papirus, 1997.

BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas I. São Paulo: Brasiliense, 1985.

DUBOIS, Philippe. Cinema, vídeo, Godard. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

GOMBRICH, Ernst H. Arte e ilusão. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

GOMBRICH, Ernst H. A história da arte. Florianópolis: LTC, 2000.

MACHADO, Arlindo. Máquina e imaginário: o desafio das poéticas tecnológicas. São Paulo: EDUSP, 1996.

MACIEL, Kátia (org.). Transcinemas. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2009.

NIETZSCHE, Friedrich. O Anticristo. Porto Alegre: L&PM, 2008.

PARENTE, André (org.). Imagem-Máquina: a era das tecnologias do virtual. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993.

SHAW, Jeffrey e WEIBEL, Peter (ed.) “O cinema digitalmente expandido: O cinema depois do filme” in O chip e o caleidoscópio: reflexões sobre novas mídias. SP: SENAC, 2005.