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  Título
Diário de um diário: um cinema piauiense emergindo em experiências fílmicas pós-super-8.
Autor
Adriana Galvão
Resumo Expandido
Esta proposta é parte integrante de projeto ora em desenvolvimento no Mestrado em História do Brasil, na UFPI, com o qual se pretende traçar um panorama cinematográfico da cidade de Teresina, investigando a transição do Super-8 ao VHS e refletindo sobre a importância de tal transição para o surgimento de uma linguagem cinematográfica com “sotaque” piauiense. Também se procurará perceber como esse processo favoreceu a construção de uma identidade do cinema no Piauí, que reverbera, atualmente, no contexto nacional. Tal fator é observado a partir das produções superoitistas teresinenses que, nas décadas de 1970-80 eram cerca de 30 e, nas décadas seguintes - até o ano 2004 - somam mais de duas centenas. Para tanto, a escolha do filme "Diário de um diário" (Luís Carlos Sales, 1989) não é aleatória. Trata-se do primeiro filme/vídeo em VHS produzido na cidade de Teresina. A importância em investigar a problemática está na ação de seu realizador. Ex integrante do Grupo Mel de Abelha, geração superoitista que "substituiu" o legado deixado pelo grupo de Torquato Neto, o autor formou seu grupo na Universidade Federal do Piauí. Estes passaram a frequentar o Cineclube Teresinense do Colégio Diocesano. Além de assistir a filmes, também frequentavam cursos de Cinema e, com essa "substância" passaram a realizar filmes em Super-8. Tal movimentação não é novidade como condição de existência do cinema nacional. Desde o início dos anos 1920, toda uma geração se organizou em torno de cineclubes, que foram os principais articuladores para a exibição e estímulo à produção nacional. Muitos cineastas como Adhemar Gonzaga, Mario Peixoto e Wladimir Carvalho; críticos de cinema como Alex Vianny, Jean-Claude Bernadet e Rudá de Andrade e, muitos outros artistas e técnicos, se formaram nestes espaços culturais. No ano de 1976 chega ao Brasil pela JVC a nova ferramenta, o VHS, que leva o cinema para "dentro de casa", modifica os modos de assistir, gravar e fazer filmes, e faz sistematicamente o Super-8 ser abandonado em detrimento ao novo equipamento. O formato não necessitava de revelação, a fita tinha a capacidade de gravar até 6 horas - em contrapartida ao Super-8 que não chegava a 3 minutos - um verdadeiro "arsenal" de acessibilidade para jovens e "velhos" artistas. Como em todo Brasil, em Teresina não foi diferente. Após a realização de "Diário", um verdadeiro boom eclodiu na cidade, com adesão, inclusive, dos profissionais de publicidade e, também, de jovens estudantes universitários. Toda essa efervescência cultural culminou na realização do Festival de Vídeo de Teresina que, desde 1993 realiza importante encontro cinematográfico, com presença de vários estados brasileiros e também de outros países. Diário torna-se assim, um "filme/vídeo essencial na construção deste panorama, de um cinema "embrionário" na cidade. Todo esse processo pode ser sentido na obra do hoje cineasta, Douglas Machado - participante como vídeomaker desde o início dos anos 90 - o principal representante do cinema piauiense, reconhecido nacional e internacionalmente. Revelada sua importância histórica e cultural e, à luz de um cinema experimental, o filme possui uma linguagem ousada para a época. Embora a música ainda continue como pano de fundo e a temática permaneça com foco na crítica sócio/política, há a inserção de ruídos que dão sustentação à narrativa, e a intrusão de elementos ficcionais: representa um assassinato fictício no centro da cidade. Através dessa intervenção pública (os transeuntes são figurantes reais e casuais) propõe, também, um hibridismo de linguagens. O autor demonstra um domínio em sua feitura e realiza uma montagem inovadora. Por esses e outros aspectos, "Diário" é passível de uma análise mais profunda, um diálogo entre cinema e vídeo, entre cinema e arte, entre cinema e história. Esta proposta pretende, ao compartilhar essas imagens ainda desconhecidas, ampliar o debate em torno da condição de existência de um cinema piauiense.
Bibliografia

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MARINHO, Klayton. Entrevista concedida a Adriana Galvão em 23.09.09.

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