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  Título
Torre Bela: fantasmas do cinema de Abril
Autor
José Filipe Costa
Resumo Expandido
Poucos dias depois do golpe militar 25 de Abril de 1974, os cineastas e técnicos portugueses divulgaram qual deveria ser o novo papel do cinema no contexto da revolução: um potenciador de transformação politica e social do pais. Para que tal se concretizasse, defenderam a reestuturação de todos os sectores da actividade, da produção e da exibição, na linha de muitas noções propagadas pela corrente chamada Terceiro Cinema. A isto não terá sido alheia a presença de Glauber Rocha que participou no documentário colectivo As Armas e o Povo de 1975. O impulso imediato de muitos dos cineastas e técnicos foi o de registar os acontecimentos diários, com a consciência de que era necessário fixar e mudar a história através das imagens em movimento. Começaram então a organizar-se em estruturas colectivas, quer sob a forma de cooperativas, quer sob a forma de unidades de produção, exigindo que a produção cinematográfica portuguesa apoiada pelo Estado conquistasse espaço à produção cinematográfica norte-americana que dominava o mercado de distribuição e exibição cinematográfica.

Nos debates realizados no âmbito do ciclo de cinema organizado pela Cinemateca Portuguesa no décimo aniversário da Revolução do 25 de Abril, sobressaiu a ideia de que muito da produção cinematográfica do período revolucionário é esquematicamente militante, sem que as imagens e os sons libertem a “energia” do real. Por outras palavras, estes filmes parecem não resistir a um olhar contemporâneo que neles identifica um objecto datado e redutor das ambiguidades e complexidades do que então estava em jogo na arena social e politica do país. Uma das excepções apresentadas é o filme Torre Bela (1977), do alemão Thomas Harlan. O documentário segue a ocupação de uma herdade enorme que pertencia à família do Duque de Lafões e os passos que são dados para a formação de uma cooperativa agrícola. Os protagonistas são agricultores das aldeias vizinhas, alguns desempregados, analfabetos e alcoólicos, apresentados nas suas acções e diálogos em longos planos-sequência, sem uma voz off que ofereça uma interpretação dos acontecimentos filmados. Este estilo cinema-directo terá contribuído para o discurso que coloca o filme Torre Bela num espaço especifico da história do cinema feito nesse período. Mas há outras.

Proponho discutir as razões que levaram a categorização da obra de Harlan como um caso particular no cinema português, desmontando alguns argumentos que ainda hoje têm nele o filme mais simbólico e representativo desse período. A partir de entrevistas feitas a vários intervenientes no filme, entre os quais Thomas Harlan, veremos como por exemplo, a presença da câmara foi um catalizador dos acontecimentos e até que ponto, Harlan precipitou e provocou mesmo algumas acções para que a ocupação se realizasse.

Por outro lado, examinarei como Torre Bela joga com a memória colectiva relativa a essa período. Três décadas e meia passadas sobre a ocupação, tenho estado a filmar os seus protagonistas nas aldeias vizinhas da herdade, revisitando o espaço e os mitos criados em torno do documentário. Uma das primeiras conclusões é a de que o filme se tornou para alguns numa espécie de prova de um “crime” cometido pelos ocupantes que resultou na destruição do chamado “palácio” da quinta. Para outros, a circulação do filme é uma forma de perpetuar e mitificar a experiência da Torre Bela como representante de uma época única de explosão de energia social no país. A forma como o documentário de Harlan é hoje problematizado pelos seus espectadores dá ainda espaço para questionar aquilo que muitos têm denominado comos “excessos” e utopias de Abril: até que ponto o filme afirma as possibilidades de se constituírem experiências colectivas semelhantes à da Torre Bela? De que forma é que o cinema de Abril transformou a realidade do país? Ou terá sido a telenovela brasileira Gabriela, exibida em 1977 que de facto fez parar o país e mudou mentalidades?
Bibliografia

AAVV (1984)25 de Abril-Imagens, Cinemateca Portuguesa, Lisboa



AA.VV (1999), 25 de Abril no cinema, antologia de textos, Lisboa, Cinemateca Portuguesa



AA.VV (s/d), Torre Bela [Dossier produzido para o lançamento do filme Torre Bela, distribuído pela Atalanta Filmes]



AA.VV (s/d), Cinequanon, Brochura editada no quarto aniversário da Cinequanon [consultável na biblioteca da Cinemateca Portuguesa, Lisboa]



BUCHSBAUM, Jonathan (2001), “A closer look at third cinema” – Historical Journal of Film, Radio and Television, Vol. 21, No. 2, 2001



COSTA, José Filipe (2002), O Cinema ao Poder! A revolução do 25 de Abril e as políticas de cinema entre 1974-1976, Lisboa, Hugin



NICHOLS, Bill (1991), Representing Reality: issues and concepts in documentary, Bloomington and Indianapolis, Indiana University Press



PISANI, Francis – Torre Bela – Todos temos direito a ter uma vida, Coimbra, Centelha, 1978



REZOLA, Maria Inácia (2007), 25 de Abril, Mitos de uma Revolução, Lisboa, Esfera dos Livros