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  Título
Algumas reflexões sobre o som no documentário de temática musical
Autor
Cristiane da Silveira Lima
Resumo Expandido
O cinema de ficção construiu ao longo de sua história toda uma sistematização do uso do som nos filmes. Ora reforçando as emoções da cena, ora com sentindo abstrato, a ficção já se deu conta de que o som influencia sobremaneira a percepção do movimento, da velocidade, do tempo. Parece-nos, entretanto, que o documentário não sistematizou, ainda, seus procedimentos específicos – talvez por certo menosprezo à questão sonora. O ruído, no mais das vezes, apenas cria uma ambiência para as situações filmadas e a trilha sonora é utilizada no documentário com muita reserva. Talvez seja a voz o elemento sonoro explorado de maneira mais sofisticada no documentário.



Michel Chion (2008) afirma que o som no cinema é, de um modo geral, vococentrista (mais especificamente verbocentrista), uma vez que favorece majoritariamente a voz, tratada como suporte da expressão verbal. Parece-nos que o mesmo ocorre com o documentário, especialmente o documentário atual, que favorece a entrevista como procedimento privilegiado para a aproximação dos sujeitos filmados.



No campo das reflexões acadêmicas sobre o cinema, embora as questões sonoras tenham sido negligenciadas em favor do estudo da imagem, já existem formulações que permitem pensar a combinação audiovisual em sua complexidade – e a atitude perceptiva do espectador diante destas obras. A essa atitude Chion (2008) chamou audiovisão, em um esforço de enfatizar que uma percepção influi na outra e a transforma. Assim, uma abordagem audiovisual não deveria separar em demasia som e imagem e deveria sempre levar em consideração a atitude do audioespectador.



Neste artigo, buscamos refletir sobre os aspectos sonoros da escritura do documentário, tomando como ponto de partida a proliferação dos filmes brasileiros recentes que se interessam pela temática musical, como Nelson Freire – Um Filme Sobre um Homem e sua Música (João Moreira Sales, 2003); Paulinho da Viola - Meu Tempo é Hoje (Izabel Jaguaribe, 2003); Aqui favela o rap representa (Júnia Torres e Rodrigo Siqueira, 2003); Sou Feia Mas Tô na Moda (Denise Garcia, 2005), Herbert de Perto (Roberto Berliner e Pedro Bronz, 2006); Fabricando Tom Zé (Décio Matos Jr, 2007); Cartola: Música para os olhos (Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, 2007); L.A.P.A (Emílio Domingos e Cavi Borges, 2008); Simonal - Ninguém Sabe o Duro Que Dei (Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal, 2008); O homem que engarrafava nuvens (Lírio Ferreira, 2008), para citar apenas alguns exemplos. O que os filmes fazem com o som ao eleger a música como tema principal, este fenômeno sonoro por natureza? A nossa hipótese é a de que, ao optar por lidar com um fenômeno essencialmente sonoro, os documentários precisam fazer mais do que ‘registrar a música sendo executada por um intérprete’ - eles precisam dar conta da performance que faz a música acontecer e engajar o espectador numa escuta diferenciada.



Comolli (2004) lembra com precisão que registrar o trabalho corporal do músico é apenas uma parte do trabalho do cineasta interessado em filmar a música. Diante da “essencial invisibilidade da música” (COMOLLI, 2004, p.323), o que o cinema muitas vezes faz é apenas conferir-lhe uma face, uma visibilidade. Mas para filmar a música enquanto ela acontece, seria preciso algo mais.



Para refletir sobre estes aspectos apresentados por Chion e Comolli, propomos uma breve análise de Nelson Freire - Um Filme Sobre um Homem e sua Música, de João Moreira Sales, documentário que tem como personagem principal Nelson Freire, um dos mais importantes pianistas do país. Como o próprio título do documentário esboça, trata-se de um filme que pretende abordar a relação de um homem e sua música, mas por meio de procedimentos que ultrapassam o discurso verbal. A força do personagem Nelson Freire é construída em torno de sua figura introspectiva, solitária, contida – particularmente silenciosa.

Bibliografia

CHION, Michel. La Audiovisión - Introducción a un análisis conjunto de la imagem y el sonido, Barcelona: Paidós, 1998.

______ . Va voix au cinèma. Paris: Cahiers du cinèma/Editions de l’Etoile, 1982.

______ . Le son au cinèma. Paris: Cahiers du cinèma/Editions de l’Etoile, 1985.

______ . La musique au cinèma. Paris: Fayard, 1995.

COMOLLI, Jean-Louis. “Quelques pistes paradoxales pour passar entre musique et cinèma”. Voir et pouvoir. Paris: Verdier, 2004.

GUIMARÃES, César; LEAL, Bruno Souza; MENDONÇA, Carlos Camargos (orgs.). Comunicação e experiência estética. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006.

MESQUITA, Cláudia. “Retratos em diálogo: notas sobre o documentário recente”. In: Novos Estudos - CEBRAP. São Paulo, n. 86, março 2010. pp.105-118.

ZUMTHOR, Paul. Performance, recepção, leitura. SP: Educ, 2000.