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  Título
A vida pós-Lost: como os fãs se tornaram prosumidores
Autor
Francisco Beltrame Trento
Resumo Expandido
A transmissão do último episódio da série Lost em 23 de maio de 2010 não foi um índice de que sua narrativa estivesse encerrada, pelo menos não pelos meios considerados “oficiais”. O seriado apresenta um alto grau de complexidade e é formado em multicamadas narrativas que se sobrepõe e entrelaçam. A manutenção de sua existência no imaginário da sociedade em forma de discussão e análise continua, sendo um exemplo de uma obra aberta, conceito desenvolvido por Umberto Eco (1971). Hoje tal conceito pode ser reformulado para um ecossistema midiático dominado pela Cultura da Convergência. É possível afirmar que, em um seriado marcado pela sua narrativa transmídia, cujo consumo foi auxiliado pelas mídias digitais, nas quais seus mistérios, spoilers e as correntes científicas e ideológicas foram sendo desvendados coletivamente em fóruns de discussões, blogs e outras ferramentas colaborativas, continue de forma independente de sua matriz, a ABC. Seus fãs, “órfãos”, se valem das ferramentas de produção e edição audiovisual ou textual como forma de continuidade do enredo. Dez meses depois do término do enredo televisivo, um curta-metragem dirigido pelo canadense Corey Vidal, conhecido produtor e diretor por seu canal do YouTube, foi subido à internet. Intitulado The Man Who Brought Us Here conseguiu mais de 300 mil visualizações em dois meses. O eixo central da trama do pequeno vídeo é o destino e a continuação do trabalho da Iniciativa Dharma, uma organização que manteve funcionários e fez experiências na ilha de Lost durante décadas. A qualidade de produção desse vídeo fez com que Carlton Cuse, um dos criadores de Lost, admitisse publicamente que tivesse visto a produção extra-original pós-série, e que, de fato, apreciou a “continuação” segundo declaração em seu perfil do Twitter. Outro projeto que surgiu na rede e que envolve o universo criado em torno da série depois de seu fim é The Island, uma websérie que reedita o programa segundo sua ordem cronológica. Desenvolvido no formato de um seriado, dividido em temporadas com episódios disponibilizados para download toda semana, pretende ser um “projeto orientado a todos os fãs que querem voltar a assistir Lost de uma forma original”. Como uma das principais características do seriado era a narrativa não linear, em que flashbacks e flashforwards iam completando aos poucos um quebra-cabeça confuso, uma reedição que segue o fluxo temporal convencional traz, obviamente diferentes interpretações e consumo do produto através de sua remixagem. Em um mundo em que, de certa forma, as tecnologias de produção (câmeras de vídeo e computadores) e de disseminação (plataformas como Youtube, blogs e serviços de upload de arquivos grandes) estão, de certa forma, mais democratizadas, a discussão inicial proposta por Umberto Eco há quatro décadas deve ser revista sob um novo prisma. As obras audiovisuais não estão mais somente abertas no imaginário e na reflexão pós-consumo, continuam a existir como sub-produtos e spin-offs produzidos pelos fãs que as consomem. “A fronteira entre um conteúdo gerado por um usuário e a produção da da indústria cultural é muito porosa. Conteúdos que nascem com um espírito marginal e artesanal podem ser absorvidos por grandes sistemas de comunicação” (SCOLARI, 2010). Tal citação resume muito bem a definição do universo Lost após 23 de maio de 2010. Espectadores, satisfeitos ou não com a resolução (ou falta de) dos mistérios da narrativa, a continuam de forma autônoma, através de vídeos, remixagens, fan-fictions literários e discussões em fóruns. “Se os produtores não querem, não sabem ou não podem gerar um novo conteúdo, os prossumidores terminarão construindo-o.”(SCOLARI, 2010). Novas teorias terão que mostrar que o “encapsulamento” de obras abertas como Lost em suas formas originais é uma tarefa impossível; em uma sociedade em que todos construímos a obra, não mais somente em imaginários, interpretações e discussões, mas também em novas sub-obras rizomáticas.
Bibliografia

ECO, U. A Obra Aberta. São Paulo: Perspectiva, 1976. JENKINS, H. Cultura da Convergência. São Paulo: Aleph, 2008. GRAY, J. Show Sold Separately: Promos, Spoilers and Other Paratexts. Nova Iorque: New York University Press, 2010. MASSAROLO, J. & ALVARENGA, M. Franquia Transmídia: O Futuro da Economia Audiovisual nas Mídias Sociais. Disponível em Acesso em 26/02/2011. SCOLARI, C. A. (org). Lostologia: estrategias para entrar y salir de la isla. Buenos Aires: Editorial Cinema, 2010. SMITH, A. Transmedia Storytelling In Television 2.0. Disponível em . Acesso em 26/02/2011.