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  Título
O caminho do olhar: entre as pinturas e as vinhetas de televisão
Autor
Felipe Muanis
Resumo Expandido
A transformação da imagem na televisão segue caminhos similares e ao mesmo tempo complementares aos da pintura, o que demonstra a necessidade de não apenas estudá-la como um campo de imagens variadas, em que é possível encontrar desde narrativas fechadas até narrativas abertas e não-narrativas, representativas ou não-representativas. Nesse contexto é legítimo considerar que as vinhetas de televisão como metaimagens, autorreferentes, também devam ser examinadas, bem como sua relação com as transformações da imagem de um modo geral.

Assim como as aberturas de programas feitas no passado, inúmeros caminhos e desenvolvimentos da imagem nas artes foram absorvidas pela televisão e chegam a mais pessoas em um contexto de maior comunicação, também através das vinhetas. Mais do que isso, a televisão, e aqui priorizando a análise das vinhetas institucionais televisivas com as suas diversas possibilidades de olhar, leva não apenas produtos audiovisuais para os recônditos do país, mas também distintos modos de ver e se relacionar com uma imagem a partir de uma superfície.

Em suma, ainda que essas práticas não sejam exceções que confirmem a regra de uma suposta indigência na poética televisiva e muito menos a justificativa para finalmente se atentar para a televisão, a compreensão de artistas modernos sobre o seu potencial e a opção por trabalhar no meio colaboram para mostrar, até mesmo para os mais empedernidos, que as experiências de movimento do olhar das artes migraram e também são observáveis na televisão. É importante ressaltar, contudo, que a televisão não abriga uma imagem diferenciada somente quando feita em caráter de exceção por pessoas que carreguem o moderno dentro de si. Essas possibilidades podem ser encontradas na programação do dia a dia, pela variedade de produtos que ocupam a grade e pelas diferentes maneiras de se experimentar a televisão. As vinhetas institucionais de televisão são um pequeno exemplo: exibidas diariamente e sem despertar grande atenção, apresentam-se em diálogo com a própria transformação da imagem nas artes. Fica claro, desse modo, como as mudanças na imagem das vinhetas, proporcionadas em parte pela transformação técnica, reafirmam a necessidade de inserir esses produtos em uma teoria mais ampla das imagens e em uma certa cronologia da movimentação do olhar do espectador sobre uma superfície.

Tendo em mente as alterações que ocorreram na história da televisão e que modificaram a sua imagem, analisam-se aqui neste trabalho as características de vinhetas institucionais entre-programas da Rede Globo de Televisão e da MTV Brasil, que, pelas suas singularidades e ambivalências, permitem ampliar o horizonte da reflexão, reinserindo a televisão nas discussões sobre a transformação da imagem. Em paralelo, destacam-se os movimentos da imagem nas artes plásticas, em especial nos filmes de Oskar Fischinger, nas pinturas de Cézanne e Edouard Manet, na pop-art de Jasper Johns e nas assemblages de Robert Rauschenberg, nos happenings e na vídeo-arte. Tais analogias, tendo como ponto de partida a relação entre o espectador e a superfície em que se imprime a imagem, ajudam a compreender a imagem da televisão inserida no contexto de transformação das imagens.

Devido as inúmeras possibilidades de recombinação dos fragmentos, de agregar uma imagem moderna e pós-moderna, refletindo contradições e correspondências, as vinhetas de televisão se revelam um objeto de definição menos evidente. Ao ser investigadas, porém, oferecem outras nuances sobre a relação entre o olhar do espectador e as imagens televisivas. É possível assim, especialmente sobre as vinhetas da Rede Globo e da MTV, ver uma influência na própria imagem que constitui a televisão e sua transformação. Nesse sentido é importante entender como se modificou o referencial do espectador com relação à imagem na pintura, para entender suas semelhanças e diferenças, até chegar à televisão.

Bibliografia

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KANDINSKY, Wassily. Do espiritual na arte. São Paulo: Martins Fontes, 2000.



MOURÃO, Maria Dora. Entrevista: cinema e novas tecnologias , conversa com Peter Greenaway. In: MACIEL, Maria Esther (org.). O cinema enciclopédico de Peter Greenaway. São Paulo: Unimarco, 2004.



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SCHOEMANN, Annika. Der Deutsche Animationsfilm: Von den Anfängen bis zum Gegenwart 1909 – 2001. Sankt Augustin: Gardez!, 2003.