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  Título
A criação de novos autores pelos Cahiers du Cinéma contemporâneos.
Autor
Bruno César Dias de Carmelo
Resumo Expandido
Dentre os diversos livros e artigos consagrados ao estudo da “política do autores”, poucos são desprovidos de uma visão valorativa desta concepção de cinema. De fato, o pensamento crítico herdeiro do romantismo do século XVII e representado por François Truffaut, Jean-Luc Godard, Eric Rohmer e outros, durante os anos 1950, é ainda hoje evocada de maneira quase unanimemente positiva, como uma evolução necessária e irrevogável da crítica de cinema.



Este artigo pretende analisar as implicações desta forma de pensamento e suas consequência nos dias atuais, principalmente para os Cahiers du Cinéma, que ainda constituem a publicação de crítica de cinema mais popular e mais respeitada na França. Para isso, será necessário estudar a crítica fora do contexto qualitativo que cerca esta atividade profissional, frequentemente legitimada pela “paixão pela sétima arte” e “defesa do cinema”. Serão adotados alguns pontos de vista do crítico de cinema enquanto profissional comum, assim como um jornalista, enquanto cinéfilo, assim como o público, e enquanto fã, assim como todos os indivíduos que vangloriam um objeto de apreciação com maior ou menor distanciamento analítico.



Para o estudo de novos autores, este artigo pretende recorrer à análise comparativa de um grupo representativo de realizadores defendidos e recusados pela revista. Serão selecionados nomes enunciados pelas próprias classificações e rankings fornecidos na revista. Assim, será estudada a evolução de todos os artigos críticos escritos sobre os filmes de quatro dos realizadores mais apreciados pelos redatores (Gus Van Sant, Apichatpong Weerasethakul, Abdellatif Kechiche e Tariq Teguia), três dos realizadores menos apreciados (Luc Besson, Spike Lee, Michael Haneke), dois autores consagrados desde os anos 1960, para estudar a evolução da análise crítica de suas obras (Alain Resnais, Francis Ford Coppola) e dois casos limites de roteiristas e produtores que parecem imprimir um marca tão pessoal – ou ainda mais pessoal – do que a do diretor (os filmes produzidos por Disney/Pixar e os filmes roteirizados por Charlie Kaufman).



Com a comparação destes artigos, será possível compreender: 1) Como se estabelece a primeira reação diante da obra inaugural de um autor posteriormente consagrado, 2) De que maneira e em que momento o rótulo “autor” é aplicado pela primeira vez, e reconhecido pelo resto da crítica em seguida, 3) Quais as características textuais dos artigos dedicados aos filmes de autores, e de que modo estes filmes são interpretados em relação aos filmes de “não-autores”, 4) Quais os valores cinematográficos defendidos nos filmes de autores e rejeitados nos filmes de “não-autores”, e 5) Quais relações esta forma de crítica estabelece com o leitor, com os outros profissionais de cinema além do realizador-autor, e quais as implicação da política dos autores no próprio estabelecimento da crítica de cinema enquanto atividade sócio-profissional.



Este projeto pretende constituir uma análise interdisciplinar, utilizando noções oriundas da análise textual, da sociologia do trabalho artístico, da psicologia cognitiva e da teoria de cinema, afim de propor uma visão crítica da “política dos autores”, esta concepção do cinema enraizada na cultura atual e transformada em senso comum pela cinefilia contemporânea.

Bibliografia

Além de cerca de cem artigos escritos a respeito dos filmes de autores consagrados e desprezados pela revista Cahiers du Cinéma, serão utilizadas principalmente as obras citadas abaixo:



- BORDWELL, David. Making meaning – inference and rhetoric in the interpretation of cinema. Harvard University Press, 1989.



- BOURDIEU, Pierre. La distinction. Paris, Les Editions de Minuit, 1979.



- DE BAECQUE, Antoine (org.) La politique des auteurs – les textes. Collection Petite Anthologie des Cahiers du Cinéma, 2001.



- ESQUENAZI, Jean-Pierre (org.) Politique des auteurs et théorie du cinéma. Paris, Collection Champs Visuels, L’Harmattan, 2003.



- JULLIER, Laurent. Qu’est-ce qu’un bon film ? Paris, La Dispute, 2002.



- HEINICH, Nathalie. L’élite artiste – excellence et singularité en régime démocratique. Paris, Gallimard, 2005.



- MENGER, Pierre-Michel. Le travail créateur – s'accomplir dans l'incertain. Paris, Gallimard/Seuil, 2009.