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  Título
Vilém Flusser e o Olho selvagem: a Teoria Flusseriana do Cinema
Autor
Erick Felinto de Oliveira
Resumo Expandido
Em um de seus muitos textos inéditos, escrito possivelmente por volta dos anos 60, Vilém Flusser desnevolve um argumento próximo a uma das premissas básicas de Deleuze em sua obra clássica sobre o cinema. Segundo Flusser, o cinema é uma forma de pensamento. O que o singulariza é sua capacidade de veicular e desenvolver noções filosóficas, e de modo mais impactante, inclusive, que o discurso filosófico propriamente dito. Ao tomar como estudo de caso o filme de Fellini “O Olho Selvagem” (1959), Flusser busca demonstrar como o cinema, por meio de sua “estrutura determinada pelas técnicas” e por seus “instrumentos”, configura um espaço de produção de conceitos*. Na obra de Fellini se tematiza uma questão central da filosofia, mas com “dimensões adicionais e contornos novos” produzidos precisamente por meio de sua especificidade expressiva. Essa questão é elaborada pelo autor como uma teoria do “olho selvagem”, na qual se poriam em cheque categorias como objetividade, subjetividade e realidade. Todavia, em seu breve ensaio, Flusser não chega a desenvolver uma justificativa para esse poder filosófico do cinema, assim como não explicita em que sentido as questões trabalhadas no filme constituem a “mesma mensagem” do discurso filosófico, sendo, também, de algum modo diferente. Nossa hipótese é de que a pista essencial se encontra numa observação pontual e passageira do texto, quando o autor adverte que é possivelmente no filme “não excepcionalmente ‘grande’” que a força filosófica expressiva do cinema adquire especial intensidade. Desse modo, o objetivo central deste trabalho consiste, por um lado, numa tentativa de decifrar o que se deve entender da misteriosa observação de Flusser, e, por outro lado, de esboçar os contornos de uma teoria da experiência fílmica no pensamento flusseriano. Para tanto, iremos recorrer especialmente a um conjunto de manuscritos inéditos preservados no Flusser Archiv da Universität der Künste Berlin (UdK). Nestes trabalhos, para além das contradições caracterizando abordagens em conflito (que, aliás, era característica de todo o modus operandi de Flusser), encontramos uma percepção do cinema como tecnologia de produção do novo – e cujo interesse cultural para o homem contemporâneo reside, também, em sua relativa juventude histórica. Nesse sentido, importa ainda desenvolver a crença flusseriana no cinema como uma arte do futuro, cujas capacidades ainda estão longe de ter sido plenamente desenvolvidas. O filme e suas potencialidades pós-históricas (“nachgeschichtlichen Potentialitäten”**) ainda aguardam o surgimento de uma nova relação com o aparato capaz de explorá-lo plenamente. A comunicação aqui proposta constitui o germe de um projeto já em andamento (em parceria com Adalberto Müller): a publicação de um livro discutindo a visão de Flusser sobre o cinema a partir dos materiais disponíveis na UdK.

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* a organização do arquivo coloca algumas peculiares dificuldades. Muitos textos são cópias ou originais datilografados de Flusser, sem indicação do ano de confecção. A única referência capaz de identificar esses escritos é a numeração desenvolvida pelo arquivo, que usaremos como forma de definir as referências aos materiais citados nesta proposta. “Do Olho Selvagem” tem como numeração 1860-2339.

** Filmerzeugung und Filmverbrauch” – n. 1608-2572.

Bibliografia

Deleuze, Gilles. Cinema 1: L’Image mouvement. Paris: Minuit, 1983.

________________. Cinema 2: L’Image-Temps. Paris: Minuit, 1985.

Flusser, Vilém. “Critica de Cinema” (M3-09)

________________. “Especulações em Torno do Filme” (M3-04)

________________. “J. C. Ismael, Cinema e Circunstância (M3-02)

________________. “Do Olho Selvagem” (1608-2339)

________________. “Filmerzeugung und Filmverbrauch” (1608-2572)

________________. “Diacronia e Historicidade” (1608-2859)

________________. Kommunikologie. Frankfurt: Fischer, 1998.

________________. Kommunikologie weiter denken. Frankfurt: Fischer, 2008.

Kittler, Friedrich. Grammophon, Film, Typewriter. Berlin: Brinkmann & Bose, 1986.