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  Título
A poética da família na obra do cineasta chileno Sebastián Lelio
Autor
ELEN DOPPENSCHMITT
Resumo Expandido
Diretor, roteirista, camarógrafo e montador, Sebastián Lelio é um jovem cineasta chileno que começou sua carreira nos anos 2000. Partindo como diretor de curtametragens e vídeos musicais, despontou apenas em 2003 como co-diretor (junto a Carlos Fuentes) do documentário Cero em que trabalhou com materiais inéditos da queda das Torres Gêmeas. Também dirigiu uma série documental televisiva nominada aos prêmio Altazor e EMI. Em seus trabalhos de ficção, Lelio tem privilegiado a tecnologia digital, roteiros sem diálogo e a montagem, que são notados desde seus curtametragens (Ciudad de Maravillas, Carga Vital e 2 Minutos). Seu primeiro longa, La Sagrada Família (2005), foi rodado em três dias e editado durante quase um ano, tendo participado em mais de 100 festivais e recebendo 28 prêmios nacionais e internacionais. Navidad (2009), o segundo, foi um projeto apadrinhado pela Residência do Festival de Cannes em 2007, apoiado por CORFO (2007) e pelo Fondo de Fomento Audiovisual (2008).

Há nestes filmes como tema comum o conflito entre diferentes gerações dentro da família; se no primeiro este aparece mediante o confronto face a face de ácidas ou escamoteadas discussões entre seus membros (e, eventualmente, entre os membros da família e um “estranho”), no segundo são mencionados apenas como relatos, quando então opta por representá-los por mediações (conversas telefônicas, anotações em um diário pessoal, audição de um disco antigo...). O foco está mais especificamente na não aceitação de um “pai” que é preciso matar, quer seja este conservador, ausente ou já morto de fato. A relação entre pai-nação, mãe-pátria na cinematografia brasileira observada nas análises do crítico Avellar (2007), parece-nos oportuna neste momento:

“Na mesma medida em que nos filmes da década de 1960 as relações familiares e os traços individuais dos personagens apareciam fora de foco, para que eles pudessem ser compreendidos enquanto representações da cena política e social, para deslocar o conflito do particular para o geral, na mesma medida, nos filmes que começamos a fazer na década de 1990 o foco parece se concentrar no individual e nas relações familiares, para que os personagens possam ser sentidos enquanto reafirmação da cena política e social no individual, na família: o pai como o país”(AVELLAR, 2007: 226)



Analogamente, as análises de Peñuela-Canizal (1994) sobre Almodóvar e o cinema espanhol também nos são úteis para se apostar em uma poética da família no cinema contemporâneo do diretor chileno, dado que, conforme comenta o autor “a redução do espaço da cidadania faz exacerbar o familiar e o grotesco familiar”, quer seja, com uma alusão ao incesto, homossexualismo, triângulos amorosos que abalam a estrutura clássica do conceito de família, até uma análise social mais ampla em que o hedonismo, o uso de drogas e uma exacerbação de experiências estéticas permitem uma leitura crítica do contexto social. Nos filmes em questão observa-se uma resistência ao “mundo do adulto” e uma ética adolescente mediadas pelo gosto ou profissão de diferentes personagens: arquitetos, aspirante a artista que desenvolve uma intervenção urbana no metrô, atriz de teatro, adolescente dos anos 2000 que cultua o mobiliário e a música dos anos setenta como formas alienantes de resistência. As duas histórias ainda trazem como elemento comum o isolamento dos personagens em uma casa fora dos centros urbanos onde toda a narrativa acontece, sendo a maior parte dela nos cômodos interiores da casa. O espaço externo reduzido corrobora ainda mais para dar a sensação de claustro e alienação. Os personagens não só se refugiam na família e nos seus possíveis conflitos - que não se resolvem - como não parecem querer estabelecer contato com outros espaços públicos.

Resta-nos mostrar como Lelio elabora uma concepção estética de cinema mediante a economia de recursos revelando uma sociedade sombria, falsa, carente e alienada politicamente tendo a família como foco nesse diagnóstico.
Bibliografia

AVELLAR, José Carlos. Pai país, mãe pátria. ALCEU - v.8 - n.15 - p. 217 a 237- jul./dez. 2007.

BALÁZS, Béla. The Close-Up and The Face of Man. In: DALLE VACCHE, Angela (ed.). The Visual Turn: classical film theory and art history. New Jersey: Rutgers University Press, 2003.

BALÁZS, Béla. Subjetividade do Objeto In: Xavier, Ismail (org). A Experiência do Cinema. Antologia. Rio de Janeiro: Edições Graal/Embrafilmes, 1993.

FLORES, Carlos. Excéntricos y Astutos. Santiago de Chile: Ediciones Programa de Magíster en Teoría e Historia del Arte, Universidad de Chile, 2007.

JAMESON, Fredric. As marcas do visível.Rio de Janeiro:Editora Graal, 1995.

PEÑUELA CANIZAL, Eduardo. Urdidura de Sigilos: ensaios sobre o cinema de Almodóvar(org.) São Paulo: Anablumme, 1996. 2ª. Edição.

XAVIER, Ismail. O discurso cinematrográfico. A opacidade e a transparência. 3ª. Edição revista e ampliada. São Paulo: Paz e Terra, 2005.