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  Título
Cinema, Tecnologia, Arte: Uma visão crítica sobre a cor no cinema
Autor
Maria Helena Braga e Vaz da Costa
Resumo Expandido
Existem diferentes explicações oferecidas pelos historiadores, teóricos e estudiosos do cinema para a introdução da cor no contexto cinematográfico. Alguns argumentam que a cor foi utilizada para funcionar como uma resposta à “tendência realista” que dominou a área no período do seu desenvolvimento. Outros contrapõem essa explicação às determinações econômicas que favoreceram a introdução da cor como um novo produto que possibilitaria lucro à indústria cinematográfica numa era de grande dificuldade econômica. Existe ainda uma corrente teórica que tenta explicar a introdução e utilização da cor por meio do seu desenvolvimento estético considerando os benefícios para indústria advindos da sua exploração no contexto de gêneros cinematográficos específicos enfatizando seus códigos e convenções narrativos. Argumentou-se que o filme, com elementos tais como o som e a cor, atinge uma aura de autenticidade, preservando e aperfeiçoando um senso de realidade. Logo, a cor poderia ser vista como um elemento que aproximaria o filme da realidade. Contudo, críticos da ideologia realista como Buscombe (1978) contrariavam a idéia de que a introdução da cor no cinema significasse uma melhoria no realismo em pelo menos duas maneiras. Primeiro, eles destacavam a incompatibilidade da cor com o realismo narrativo como conseqüência de problemas perceptivos. Segundo, eles notavam os usos não-realistas os quais foram impostos à cor. Isto é, de início a cor significava não uma melhoria no realismo, mas no desenvolvimento de um cinema “irrealista” e a capacidade dos cineastas de expressar a fantasia. A ideologia do realismo pode ter sido um primeiro fator determinante para a motivação do desenho tecnológico no cinema, mas claramente não foi a única necessidade preenchida pela inovação tecnológica. A análise da introdução da cor no cinema oferece um exemplo interessante em que o “ganho no realismo” não foi tão direto quanto deduziram alguns teóricos. Ao contrário, a transição dos filmes em preto-e-branco para os coloridos, ao menos inicialmente, foi plena de experimentos estéticos não-realistas. Isso ocorreu pelo menos até que o uso da cor no realismo narrativo se tornasse a forma cinemática dominante. A “verdade” é que a audiência aceitou por muito tempo a ausência da cor nos filmes quando outros códigos do realismo narrativo entravam em ação. Outro argumento que contraria o uso realista da cor foi a associação da cor com gêneros “não realistas” e fantasiosos – animações, musicais, filmes de faroeste, romances de costumes, fantasias e comédias (Buscombe, 1978). É evidente que havia oportunidades infinitas para o uso não-realista da cor em gêneros como esse. Essa categoria de filmes, aliás, está primeiramente a serviço do prazer visual (Buscombe, 1978). Uma questão importante levantada por Neale (1985) é de que, em algum momento, os cineastas despertaram para o potencial da cor como um modo expressivo para enfatizar efeitos dramáticos. A cor poderia ainda constituir um elemento significante da narrativa. Após os anos 60, virtualmente a maioria dos filmes foram filmados em cores. Então, somente com o emprego universal da cor no cinema o uso da fotografia em preto-e-branco se tornou uma escolha estética. Conclui-se que as melhorias na tecnologia e nos aparatos tecnológicos não foram o principal fator, mas condição para que as imagens do cinema se aproximassem à realidade. É importante também qualificar a extensão até a qual o “realismo” pode explicar todos os elementos e técnicas que foram introduzidas no cinema. Sabe-se que o realismo obtido pelas imagens fílmicas não é somente o resultado da introdução, melhoria ou emprego de técnicas, mas também, de fato, da construção de imagens e da produção de significados que foram incorporados às convenções do realismo fílmico.
Bibliografia

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