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  Título
Linha de passe: entre o vislumbre e o abismo
Autor
Genilda Azeredo
Resumo Expandido
Linha de passe, filme dirigido por Daniela Thomas e Walter Salles, é definido por seus diretores como “ficção que tem inveja da realidade”, uma forma metafórica de chamar a atenção para as características de documentário do filme. Além de ter sido inspirado por dois documentários, Futebol e Santa Cruz (ambos de João Moreira Salles), o filme anuncia a mistura entre representação e realidade em seu próprio processo de feitura, já que a performance dos atores se insere em contextos reais de vida, seja junto aos reais motoboys que trafegam nas ruas de São Paulo, seja junto aos evangélicos que freqüentam a igreja ou aos jogadores de futebol com quem o personagem Dario (Vinícius de Oliveira) faz os testes, além da própria torcida nos estádios em que Cleuza (Sandra Corveloni) aparece como torcedora fanática. Pessoas comuns, e não atores, também participam do filme, emprestando-lhe, como conseqüência, seus espaços de trabalho e de experiência lúdica.

Partindo da estratégia (primeira duplicidade) de contaminação explícita entre documentário e ficção que o caracteriza, propomos a discussão do filme de modo a sublinhar suas ambigüidades e tensões como a própria mola propulsora da narrativa, presente nas repetidas referências à pia entupida – índice e metáfora de estagnação, obstáculo a ser cotidianamente enfrentado – e na mobilidade das edições em paralelo das narrativas de seus personagens principais. De modo revelador, não por acaso, os personagens são quase sempre flagrados em movimento – caminhando, à alta velocidade na moto, em ônibus, correndo atrás da bola. A apreensão dos personagens em movimento significa uma busca particular, ampla e profunda pela própria cota de vida, algo que não poupa nem Reginaldo (Kaíque de Jesus Santos), a criança da família, em sua tentativa silenciosa e solitária de encontrar o pai.

A utilização das temáticas do futebol e da religião, para encharcar os personagens de densidade psicológica, também se faz instigante para a observação dos diferentes efeitos obtidos, possibilitando não apenas mera denúncia das corrupções inerentes a ambos os contextos, mas também contribuindo para a quebra de clichês, sobretudo através da personagem Cleuza e sua força impactante e comovente. O filme Linha de passe, como podemos deduzir a partir do que disse Walter Salles sobre a metáfora do título, também se insinua, ainda que de modo contido e frágil, como vislumbre de mãos (ou pés) que se dão.



Bibliografia

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