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  Título
Documentário e subjetividade-a fotografia noire em 33, de Kiko Goifman
Autor
Bertrand de Souza Lira
Resumo Expandido
A iluminação presente no conjunto das cinematografias atuais objetiva, quase que exclusivamente, emprestar realismo às cenas filmadas, sem uma preocupação maior de trabalhar significados outros do que os imediatamente visíveis. Uma luz dramática, narrativa, portadora de múltiplos sentidos, polivalente, permanece _ na sua grande maioria _ restrita a produções ficcionais e no chamado cinema de autor. Surpreende, portanto, que um tratamento imagético numa obra documental, busque uma atmosfera e trabalhe com o imaginário disseminado nos filmes de ficção, a exemplo de 33 (Kiko Goifman, 2004) que abordaremos neste estudo.

Vamos examinar aqui o processo de iluminação da mensagem fotográfica, um campo privilegiado de produção de sentido nos filmes de ficção, e sua transposição para um gênero, o cinema documental, que comumente trabalha na esfera da objetividade. Na obra em questão, o diretor se apropria de uma iluminação típica de um gênero ficcional (o cinema noir americano dos anos 40-50) para narrar uma história documental no Brasil contemporâneo. O filme se apropria da fotografia noire para documentar a inquietação de um homem (Goifman, sujeito e objeto do próprio documentário) em busca de informações sobre sua mãe biológica.

O estudo da luz remonta às pioneiras tentativas dos pintores de representá-la em toda sua plenitude. Fotograficamente, a luz cumpre quatro funções primordiais e que são trabalhadas em qualquer manual de fotografia: iluminar a pessoa ou a cena, produzindo sobre eles determinados efeitos que permitem um bom registro; dar informações precisas sobre o motivo (é a luz que informa acerca da textura, do tamanho, da forma e do contorno do objeto/motivo fotografado); criar um caráter e dar clima à fotografia (a luz põe em relevo as qualidades do motivo, sugere estados de espíritos e cria atmosfera de acordo com as necessidades expressivas do fotógrafo) e, finalmente, transmitir emoções (com uma combinação adequada e sugestiva de luz e tema, produz no observador o efeito emocional desejado). Há uma fotografia de cinema que se limita a trabalhar o realismo da luz solar como representação física destinada a marcar o decorrer do tempo, uma espécie de pontuação visual. Outra que procura reinventar um universo visível com significados suplementares em consonância com a psicologia do tema tratado. Esta modalidade circunscreve o espaço a que dedicaremos nossa investigação.

O que pretendemos com este enfoque é analisar a construção da arquitetura imagética do cinema em suas dimensões enunciativas, sociais e estéticas, a partir de um repertório de códigos partilhados pelo autor e recepção, no processo de troca de significados inteligíveis. Numa palavra, observaremos o modo como a imaginação iluminada do cinema instiga novos formatos sensíveis e perceptivos no imaginário individual e coletivo. E, simultaneamente, verificaremos como os enunciados, discursos e ações dos atores sociais na vida cotidiana inspiram novas modalidades de iluminação na arte cinematográfica que se irradia fortemente pelas várias camadas do imaginário social.

Em 33, o cinema documental encontra na fotografia poderosa aliada na expressão de uma atmosfera pretendida pelo diretor para imprimir subjetividade a um gênero marcadamente objetivo de abordagem do real. Com uma arquitetura imagética de luz e sombra, essa fotografia conota mais do que denota, sugere climas, mobiliza o imaginário provocando sensações e evocando o universo ficcional dos filmes noirs americanos.

Bibliografia

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