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  Título
The pervert´s guide to cinema: leitura performativa, recepção criativa
Autor
mahomed bamba
Resumo Expandido
A leitura é uma das principais dimensões da experiência e da recepção estéticas. Michel de Certeau, aliás, vê nesta atividade um aspecto parcial, mas fundamental do consumo cultural. As diversas teorias da interpretação são também teorias da leitura por conceberem qualquer texto (literário ou imagético) como uma “máquina de produzir leituras”. De Iser a Umberto Eco, há uma preocupação em apreender as posturas do leitor ou espectador “modelo”. Às vezes o seu investimento físico e cognitivo se dá e se revela nos limites dos “espaços de jogos e de astúcias” deixados no próprio texto. Esta concepção da leitura também se encontra nas teorias da recepção cinematográfica que definem os processos de produção e de recepção fílmicas em termos de “modos de leitura” (ODIN, 2000). A priori, diz Odin, o “leitor (espectador) pode fazer funcionar qualquer tipo de modo sobre qualquer produção”. Na interação com o texto, o espectador goza de uma relativa autonomia: ele pode aceitar o jogo que o texto lhe propõe; mas também pode empreender um tipo de atividade que consiste na combinação de fragmentos e na construção de algo que não está sempre em relação de homologia com o conteúdo do texto proposto. Além da “apologia da impertinência do leitor” e da “braconnage”, Michel de Certeau (2009) destaca, na atividade “leitora”, a intervenção de diversos movimentos corporais que culminam naquilo que ele chama de “orquestração selvagem do corpo” diante do texto. No campo cinematográfico, esta concepção dinâmica da leitura faz eco com a ideia de que os diversos ângulos e escalas de planos fazem o espectador se sentir dentro do filme. A estética de Béla Balázs, por exemplo, justifica a “novidade histórica do cinema” pela capacidade da “câmera criativa” de reduzir a distância entre a obra e a consciência do sujeito, e, por outro lado, de “carregar o espectador para dentro mesmo do filme” (1983:84-85).

São esses aspectos interativos, performativos, lúdicos e criativos da leitura como experiência estética que encontramos postos em cena no filme The pervert´s guide to cinema (Sophie Fiennes, 2006). O documentário é fruto de uma parceria ímpar entre um cineasta e um teórico do cinema. Formalmente é composto por um rico painel de filmes. Slavoj Zizek incarna a figura de um narrador-psicanalista do cinema; constrói um discurso analítico sobre os filmes para o espectador. Mas a postura teórica pouco ortodoxa de Zizek no filme faz com que ele consiga instruir e divertir o espectador. A interação de Zizek com algumas cenas recriadas e dramatizadas rompe assim com a “ausência do corpo” no ato de leitura. A mise-em-scène e os truques de montagem de The pervert´s guide to cinema carregam literalmente o analista para dentro do filme e, junto com ele, o próprio espectador que acompanha suas interpretações. Neste jogo, Zizek atua como um espectador “modelo” e um narrador-guia que se apropria de trechos de filmes clássicos para construir de forma lúdica e didática um novo discurso. A sua atuação exige do espectador deste documentário de montagem que ele próprio adote o modo de “leitura performativa”. Lembremos que Roger Odin define este modo como sendo aquele que põe o sujeito não apenas numa postura de espectador ordinário: exige dele que seja um “intérprete e um hermenêutico”. Sophie Fiennes realiza assim uma obra em forma de “análise fílmica filmada” em que intervém a leitura performativa nos dois pólos.

Esta comunicação se interessa, portanto, pelo trabalho do espectador enquanto “máquina de produzir leituras e jogos”. Pretendemos examinar as estratégias de dramatização e de mise-em-scène, bem como a imbricação dos modos de leitura crítica, lúdica e performativa nos processos de criação e recepção de The pervert´s guide to cinema. Por fim, procuraremos avaliar o impacto desses modos de leitura (usados por Zizek-narrador) sobre o “modo de leitura performativa” solicitado na recepção deste documentário construído como um discurso sobre o cinema.

Bibliografia

BALÁZ, Béla. “Nós estamos no filme”. In Ismail Xavier, A experiência do cinema. São Paulo: Ed. GRAAL. p.84-86

ECO, Umberto. Os limites da interpretação. São Paulo: Perspectiva. 2008

ISER, Wolgand. L´acte de lecture:théorie de l´effet esthétique. Liège: 1995

JAUSS, H.R. Pour une esthétique de la réception. Paris: Gallimard, 1990

JOUVE, Vincent. La lecture. Paris: Hachette, 1993

JULLIER, Laurent; MARIE, Michel. Lendo as imagens do cinema. São Paulo: Senac, 2009

ODIN, Roger. De La Fiction. Bruxelles: DeBoeck Université, 2000

NACACHE, Jacqueline. L´analyse de film en question. Paris: L´Harmattan, 2006

CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano. (vol. 1. Artes de fazer). São Paulo: Ed. VOZES, 2009