/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
Canibais, tarados e zumbis: uma radiografia do horror nos filmes independentes brasileiros
Autor
Lucio De Franciscis dos Reis Piedade
Resumo Expandido
O trabalho dá continuidade a pesquisa sobre o grotesco e o horror nos filmes brasileiros, com especial direcionamento para a produção independente de horror e sexploitation feita no país a partir da década de 1990. Pretendo destacar tanto a representação da morte violenta e as imagens extremas utilizadas, como também a explicitação de recônditos pouco convenientes e menos palatáveis da corporalidade. Elementos figurados na exploração do sexo barra pesada, do canibalismo, da necrofilia, da decomposição da carne e do temor aos mortos.

Parte desses tópicos aparece pela primeira vez no cinema brasileiro no início dos anos 60 quando José Mojica Marins ultrapassou os limites do tolerável em seus primeiros filmes: À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1963) e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967). Produções que trazem um compêndio de perversões inéditas até então nas telas, resultando em corpos mutilados e desfigurados. Abrindo caminho para as extravagâncias temáticas e gráficas de outras obras do diretor, especificamente O Estranho Mundo de Zé do Caixão (1968) - episódios Tara e Ideologia - e Perversão (1978); assim como para o emblemático O Pasteleiro (segmento de Aqui, Tarados!/1980), de David Cardoso, no qual John Doo interpreta um assassino em série que sevicia e canibaliza os cadáveres das prostitutas que recruta na noite paulistana.

Títulos que antecipam e se aproximam tematicamente de um segmento da nova geração de cineastas independentes. Autodidatas que com a popularização das camcorders VHS no início dos anos 90 e maior facilidade de acesso, graças ao videocassete, tanto aos mais inspiradores frutos do sexploitation, quanto às obscuras e radicais experimentações de diretores estrangeiros (notadamente o alemão Jörg Buttgereit e o espanhol Nacho Cerdà), passam a produzir no fundo do quintal e distribuir precariamente produtos que vão constituir um cinema de extremos que tem o horror e o grotesco como base. É o caso do controvertido realizador catarinense e pioneiro Petter Baiestorf, na ativa desde 1992, que em títulos como Eles Comem Sua Carne (1996), Caquinha Superstar a Go-Go (1996), Gore Gore Gays (1998), Arrombada (2007) e O Doce Avanço da Faca (2010) expressa em imagens perturbadoras a relação entre carne, sexualidade e morte. Seus personagens, geralmente depravados que beiram a psicopatia, transitam em um universo às avessas, onde as regras são a violência e a escatologia. No que é seguido por outros cineastas como André ZP (Sozinho, 2003), Fernando Rick (Coleção de Humanos Mortos, 2005) e André Kapel Furman (06 Tiros, 60 ml, 2005). Além disso, Baiestorf – que não raramente é vetado em mostras e outras exibições públicas - pode ser considerado o primeiro a reciclar para nosso contexto cultural um dos temas mais recorrentes e populares do cinema de horror: o zumbi. Zombio (1999) que trata do ataque de corpos decompostos redivivos em remota ilha catarinense, mais do que uma homenagem de Baiestorf a diretores como Romero e Lucio Fulci – que reinventou os monstros para o cinema italiano (Zombi 2, 1979) -, é o prenúncio da invasão de canibais e mortos vivos que tomou de assalto a atual produção de filmes de horror brasileiros. Zombio, juntamente a Raiva (Baiestorf, 2001) e aos seguintes Crônica de um Zumbi Adolescente (2002) e Rubão, o Canibal (2001), respectivamente dos citados André ZP e Fernando Rick, formam as bases de uma filmografia diversificada e original que parte das mesmas idéias do tabu do canibalismo e da fobia ao impuro personificada pelo cadáver e pela propagação infecciosa de alguma praga. Filmografia que dá nova roupagem ao tema pelas referências (inclusive regionais) de uma geração de realizadores que abusa da exposição de sangue, tripas e excessos corporais, exemplificada pelos recentes Minha Esposa é um Zumbi (2006), de Joel Caetano; Peixe Podre II (2006) e Mangue Negro (2008); de Rodrigo Aragão; Capital dos Mortos (2008), de Tiago Belotti; e A Era dos Mortos (2007), de Rodrigo Brandão.

Bibliografia

BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo: Hucitec, 1987.

CÁNEPA, Laura Loguercio. Medo de quê? – uma história do horror nos filmes brasileiros. Tese de doutorado – Universidade Estadual de Campinas. Campinas, SP: [s.n.], 2008.

CARROLL, Noëll. A Filosofia do Horror ou Paradoxos do Coração. Campinas, SP: Papirus, 1999.

KRISTEVA, Julia. Powers of Horror: An essay on abjection. New York: Columbia University Press, 1982.

LYRA, Bernadette & SANTANA, Gelson (orgs). Cinema de Bordas. São Paulo: Editora a Lápis, 2006.

PIEDADE, Lúcio. Eles comem sua carne: o filme escatológico-canibal de Petter Baiestorf, in: SANTANA, Gelson (org.). Cinema de Bordas 2. São Paulo,: Ed. a Lápis, 2008.