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  Título
Som, fúria e sentido: Shakespeare na ficção seriada televisiva
Autor
Marcel Vieira Barreto Silva
Resumo Expandido
A relação entre William Shakespeare e a televisão é antiga, repleta de estilos e gêneros, e de formas diversas de adaptação. Desde os primeiros anos da TV, suas peças serviram de fonte para a elaboração de programas: nos anos 1950 e 60, com a explosão dos dramas ao vivo (como o célebre Playhouse 90), Shakespeare já era adaptado para a tela pequena; a partir da década de 1970, uma série de programas, em diferentes países, promoveu adaptações das peças shakespearianas - nesse contexto, o caso mais emblemático é o da série BBC Television Shakespeare, que entre 1978 e 1985 exibiu adaptações de todas as trinte e sete peças do autor, num projeto que abarcava, dentro da estrutura cultural-educativa da televisão britânica, um duplo propósito: de um lado, realizar espetáculos com atores e diretores destacados no cenário teatral da Inglaterra e, de outro lado, popularizar as obras do Bardo para um público massivo, cada vez mais alijado da cultura erudita.



Com esse mesmo intuito, porém voltado ao público infanto-juvenil, a BBC ainda realizou a série Shakespeare: The Animated Tales, roteirizada pelo escritor de romances infantis Leon Garfield, mantendo em boa parte do tempo o inglês elisabetano. No Brasil, houve nos anos 1980 duas adaptações interculturais que trouxeram as tramas, personagens e conflitos das peças para o ambiente sócio-cultural brasileiro: a primeira, de 1982, chamava-se Romeu e Julieta, passava-se em Ouro Preto e tinha como protagonistas Lucélia Santos e Fábio Jr.; e a segunda possuía o título abrasileirado de Otelo de Oliveira, e era estrelada por José Mayer, Júlia Lemmertz e Roberto Bonfim. Ambos os programas foram roteirizados por Aguinaldo Silva e dirigidos por Paulo Afonso Grisolli para a Rede Globo.



Tendo, portanto, conhecimento da longa e matizada relação entre Shakespeare e televisão, apresentamos como proposta para o Seminário Temático Televisão: Formas Audiovisuais de Ficção e Documentário, uma análise do processo de adaptação da série brasileira Som e Fúria, exibida pela Rede Globo, em 2009, e produzida e dirigida por Fernando Meireles. A série apresenta a história de uma companhia teatral responsável pela Temporada de Clássicos do Teatro Municipal de São Paulo, enfrentando as agruras e conflitos para levar ao palco duas peças de Shakespeare: Hamlet e, em seguida, Macbeth. De fato, Som e Fúria é uma adaptação de uma série canadense chamada Slings and Arrows, que possuía trama semelhante (embora abarcasse a produção de uma terceira peça, King Lear, não contemplada na versão brasileira).



Nosso objetivo, portanto, é discorrer sobre os procedimentos estilísticos utilizados em Som e Fúria, enfatizando o processo de adaptação intercultural que atravessa a série e define a questão latente dentro da diegese: como adaptar Shakespeare ao teatro brasileiro contemporâneo, mantendo a sua atualidade e, ainda assim, respeitando a trama e o texto primevos? Nesse sentido, percebemos que o processo de adaptação de Som e Fúria carrega também em si essa questão interna à diegese e se define pelo modo conflituoso com que transita entre o esforço de “popularização de Shakespeare” (inerente à história da relação do Bardo com a TV) e o artifício auto-reflexivo de encenar não as peças em si, mas o seu processo de produção.

Bibliografia

BUCHANAN, Judith. Shakespeare on Film. New York: Longman-Pearson, 2005.

BURNETT, Mark Thornton e WRAY, Ramona (org.). Screening Shakespeare in the Twenty-First Century. Edinburg: Edinburg University Press, 2006.

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HUTCHEON, Linda. A Theory of Adaptation. New York: Routledge, 2006.

JACKSON, Russel. (Org.). The Cambridge Companion to Shakespeare on Film. Cambridge: Cambridge UP, 2000.

ROTHWELL, Kenneth. A History of Shakespeare on Screen: a Century of Film and Television. Cambridge: Cambridge University Press, 1999.

SANDERS, Julie. Adaptation and appropriation. New York (USA): Routledge, 2006.