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  Título
Formas fílmicas de pensamento: as vanguardas históricas
Autor
Daniela Duarte Dumaresq
Resumo Expandido
As experiências artísticas pertencentes a tradição das Vanguardas históricas têm em comum a ambição de associar pensamento e experimento formal. Olhar para o mundo de forma menos convencional; procurar no mundo diferentes formas de vê-lo e dizê-lo. Mais tarde essas experiências fundamentariam um conceito: reflexividade. O filme reflexivo estabelece um diálogo com o espectador a partir de recursos que rompem com a ilusão: não se pode mergulhar no filme e esquecer o mundo como não se pode ver o mundo a partir do filme. A obra pode, no entanto, nos ajudar a pensar o mundo. Ao experimentar as formas de construir e representar o mundo, ela nos fala deste.



Na teoria do cinema, o conceito de reflexividade aparece, nos anos 1970, relacionado ao pensamento de esquerda e aos escritos de Brecht e Althusser. Em sentindo estrito, a reflexividade fílmica é expressão de uma atitude política e imprime no filme uma estilo que pressupõe uma política. Em sentindo amplo, remete a filmes que tratam de questões relacionadas com a produção dos filmes, sua autoria, suas influências intelectuais e o próprio lugar do espectador.Para Stam hoje não seria mais possível pensar a forma reflexiva como progressista, uma vez que discursos tão díspares como o materialismo dialético e a publicidade se apropriaram dessa forma. E se a influência de Brecht orientaria uma construção que opõe reflexividade e realismo, o autor chama atenção de que, no entanto, ambos podem coexistir em um mesmo texto e seria mais apropriado falar em “coeficiente” de realismo e reflexividade.



Interessa-me, no entanto, refletir sobre as formas fílmicas que ambicionam se colocar politicamente na cena artística. Nesse ponto a reflexividade proposta pelos filmes assume a postura de uma política do olhar: é preciso não habituar o olhar e continuar a procurar diferentes formas de ver. Nesse ponto ganha destaque o trabalho dos surrealistas. Às normas da boa educação e às censuras da razão, os surrealistas contrapõem o fluxo dos sonhos, um grito libertário contra tudo o que está estabelecido. Esse retorno às vanguardas históricas e ao Surrealismo, em particular, nos ajudar a pensar como as formas contemporâneas estão construindo um olhar engajado.

Bibliografia

ALTHUSSER, Louis. Aparelhos Ideológicos de Estado. Rio de Janeiro: Graal, 1998.

BAZIN, André. O cinema: ensaios. São Paulo: Brasiliense, 1991.

BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1985 (Obras Escolhidas Vol. I).

BRECHT, Bertolt. Teatro dialético: ensaios. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira. 1967.

BRETON, André. Manifestos do Surrealismo. Rio de Janeiro: Nau Editora, 2001 [1924].

BÜRGER, Peter. Teoria da vanguarda. São Paulo: Cosac Naify, 2008

CAÑIZA, Eduardo Peñuela. Surrealismo. In: MASCARELO, Fernando (Org). História do cinema mundial. São Paulo: Papirus, 2006.

STAM, Robert. Introdução à teoria do cinema. Campinas: Papirus, 2006.

XAVIER, Ismail (org.). A experiência do cinema: antologia. Rio de Janeiro: Graal: Embrafilme, 1983.

XAVIER, Ismail. O discurso cinematográfico: a opacidade e a transparência. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005.