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  Título
Cinematógrafo e raça na Belle Époque carioca
Autor
Pedro Vinicius Asterito Lapera
Resumo Expandido
Em paralelo à chegada das novas tecnologias - cinematographo, animatographo, kinetoscopio - e à rápida transformação da vida urbana no Rio de Janeiro, um debate vinha se desenvolvendo desde fins do século XIX no meio acadêmico brasileiro: a construção de categorias raciais que pudessem classificar e hierarquizar os diversos sujeitos formadores do “povo brasileiro”. Lilia Schwarcz (2005) traça um panorama de como as ideias sobre ‘raça’ trazidas de um cenário intelectual europeu foram apropriadas por alguns acadêmicos e instituições brasileiras e quais modos esse debate interveio na relação entre instituições (e.g. Museu Nacional, Museu Paulista etc.) e formulação de políticas públicas com base em critérios ‘raciais’, que poderia ser resumida no “ideal de branqueamento” que perpassou o discurso oficial por cerca de meio século. Esta comunicação tentará abordar os modos pelos quais a projeção pública do debate sobre raça e a presença das novas tecnologias na cena urbana se entrecruzaram e em quais termos isto ocorreu. Para tanto, precisamos localizar nosso leitor. Este trabalho é fruto de um levantamento junto à Fundação Biblioteca Nacional referente à atividade cinematográfica no Rio de Janeiro entre 1896 e 1914, através de vários tipos de fontes presentes no acervo da instituição – periódicos, documentos, fotografias etc. – que se encontra no seu primeiro ano de realização. Isso significa afirmar que a análise a ser aqui empreendida é parcial e será futuramente confrontada com outras fontes consultadas ao longo da pesquisa. Apresentamos as fontes a serem aqui analisadas: as edições do Jornal do Brasil entre 1908 e 1909 , com ênfase nos anúncios publicitários dos cinematógrafos - nos quais constam breves descrições dos filmes exibidos - e nas charges que envolvem o mundo dos espetáculos. Tal escolha justifica-se por três motivos: 1) a ausência das fontes primárias (filmes) em virtude de seu desaparecimento ou de péssima conservação torna necessária a consulta a vestígios que indiretamente se refiram à atividade cinematográfica; 2) os anúncios de aparência banal variavam muito de tamanho (o que indica uma disputa por espaço comercial) e continham descrições que remetiam ao tema e, às vezes, à forma dos filmes; além disso, são vestígios da alternância da exibição dos filmes (normalmente, ocorrem mudanças a cada três dias, porém se sabe de casos em que filmes ficaram por longos períodos e/ou retornavam aos cinematógrafos depois de uma primeira exibição); 3) pelo espaço que ocupavam no jornal e pela disposição desses anúncios e das charges, percebe-se que a comunidade de leitores (Chartier, 2000) que se formava em torno dos jornais nesse período concedia ao tempo livre um lugar simbólico e de práticas relevante à conduta e à formação de valores. Eventualmente, outras fontes poderão ser citadas. Retomando o ponto em que iniciamos, deparamo-nos com a seguinte questão: que relações poderiam ser estabelecidas entre as categorias ‘raciais’ e as novas tecnologias (aqui, o cinematógrafo) na conformação de um senso comum entre os consumidores de espetáculos na virada dos séculos XIX e XX? Partimos da seguinte hipótese: a cultura de massa, ao se apropriar das categorias ‘raciais’, o faz criando novas formas de hierarquização dos sujeitos e dos grupos que diferem em graus de legitimidade, alcance e formato e, deste modo, transforma o conteúdo desse ideário. A legitimidade conferida pelo meio acadêmico da época à retórica racial e o grau coercitivo das categorias raciais na ação dos agentes estatais, embora relevantes, são insuficientes para traçar as redes pelas quais um ideário ‘racial’ foi disseminado em larga escala e atuou na formação de ‘objetivações’ que enquadraram um senso comum referente às categorias ‘raciais. Assim, nossa hipótese completa-se com o foco no cinematógrafo, isto é, no grau de disseminação e de transformação das ideias sobre ‘raça’ que perpassa a cultura de massa.
Bibliografia

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CUNHA, Olívia Maria Gomes da. Intenção e gesto: Pessoa, cor e a produção da (in)diferença no Rio de Janeiro, 1927-1942.Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2002.

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