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  Título
Alexandre Robatto Filho: memória e documento nas imagens da Bahia
Autor
Ana Luisa de Castro Coimbra
Coautor
Lívia Diana Rocha Magalhães
Resumo Expandido
O início do cinema no Brasil foi marcado por uma invasão de produções estrangeiras e que privilegiavam o cinema de ficção, mas se desenvolvia aos poucos no país a feitura de filmes documentais, chamados na época de “naturais”. Como o interesse por filmes não-ficcionais ainda era baixo, não se tinha capital suficiente para custear tais produções que muitas vezes ficavam restritos a certos espaços por tratarem de temas locais. Sem subsídio, os produtores de documentários tinham que buscar apoio em quem pudesse pagar as despesas geradas na confecção dos filmes. O cenário cinematográfico documental se tornaria dependente de uma prática denominada “cavação”, termo da década de 20 para designar os filmes de encomenda que condicionava a produção cinematográfica, em grande parte, a propagandas, feitos políticos e eclesiásticos. A câmera acabava sendo a representante do “olhar” do poder. Em torno da cavação surgiam polêmicas por considerarem tal prática a serviço de interesses de uma pequena classe abastada. A Cinearte, importante revista de cinema da década de 20, fundada por Adhemar Gonzaga e Mário Behring rechaçava os filmes cavados, por entender que estavam a serviço do poder público ou de algum financiador, e exaltava o filme de ficção como sendo o único capaz de alavancar a indústria cinematográfica brasileira. A Bahia não ficaria fora desse contexto nacional.

Apesar dos registros históricos indicarem que os precursores do cinema baiano foram Diomedes Gramacho e José Dias da Costa, com as obras Segunda-feira do Bonfim e Regatas da Bahia datadas de 1910, coube a Alexandre Robatto Filho a alcunha de pioneiro do cinema baiano, uma vez que os filmes de Gramacho e Costa foram lançados pelos próprios produtores na Baía de Todos os Santos com receio de incêndio nas dependências do laboratório fílmico. Robatto Filho, nascido em Salvador, iria produzir por mais de quatro décadas, documentários mudos e sonoros e seu legado constam cinquenta e nove filmes de registro do Estado onde a primeira obra é da década de 30.

O cotidiano da capital em choque com seu desenvolvimento, manifestações culturais, paisagens geográficas e humanas, aspectos da vida no interior são alguns dos registros que compõem a obra de Robatto Filho. Imagens são registradas, mas os costumes, as idéias e as ações também ficariam retidas em um suporte tangível podendo ser considerados documentos de importância fundamental não só para a memória de uma época, mas para memória de um cinema dependente de agências financiadoras. É absolutamente visível em boa parte dos documentários de Robatto Filho o apoio de fazendeiros, donos de indústrias, institutos federais e, sobretudo, da Prefeitura de Salvador.

Nossa pesquisa vem indicando que o cinema produzido na Bahia no início do século XX era condizente com a política de cavação adotada por cineastas de todo país. A proposta deste trabalho é traçar uma discussão entre a história e o uso do filme como um recurso do poder que se revela quando voltamos a revê-los à luz das teorias da memória. Portanto pretendemos realizar uma análise sobre as relações perceptíveis entre o conteúdo destes filmes e as diferentes esferas societárias que tomam a imagem como instrumento de uma ação política.



Bibliografia

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