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  Título
Considerações sobre crítica jornalística de TV: o caso das ficções
Autor
Regina Lucia Gomes Souza e Silva
Resumo Expandido
Podemos dizer que a crítica de TV, enquanto gênero do jornalismo cultural, fundamenta-se na avaliação de produtos televisivos, sendo esta produtora de um discurso em conformidade com objetividade jornalística. Diferentemente da chamada crítica acadêmica que dispõe de mais tempo e espaço para o exercício da escritura, nem por isso a crítica jornalística de TV pode ser considerada como a-histórica, pelo contrário, os textos críticos acerca de produtos televisivos, situam-se no tempo e espaço e são fortes registros de recepção de uma obra.

A forte diferença entre estes discurso situa-se na instância do juízo de valor e enquanto a crítica acadêmica ancora-se em conceitos já estabelecidos, geralmente por um consenso, é básico para a crítica jornalística não somente analisar a obra mas atribuir um julgamento de valor. Isto tem sido assim desde que a crítica de arte e a crítica literária passaram também a ser tarefa dos jornais que, com ou sem a classificação ortodoxa das estrelinhas, avaliava pinturas, livros, filmes ou peças de teatro.

Como lugar de valor a crítica tem sido utilizada para dar prestígio a certos produtos uma vez que a opinião de um crítico pode acolher ou não uma dada obra e mesmo reforçar seu reconhecimento perante o público. Certamente que este lugar de valoração e consagração da crítica interessa também à indústria televisiva que vê seus produtos serem divulgados na mídia com certa conveniência. Desse modo, Torres (2005) defende a independência como um princípio fundamental da crítica de TV.

Podemos observar que existem perspectivas conflituosas nos estudos sobre crítica jornalística de televisão: uma a de que a crítica perdeu seu valor apreciativo e que vem fugindo de análises mais reflexivas, passando a ser mero comentário, refém das agendas dos jornais em nome de um “interesse do público” que na verdade é um “interesse do mercado” (COELHO, 2000). Alguns mencionam uma ilusão tecnicista e culpa a formação acadêmica inadequada para o exercício da profissão de crítico não só de TV, mas de outros objetos culturais. Outras abordagens apontam para sua reconfiguração, na esteira de um jornalismo cultural mais dinâmico, que deve adaptar-se às novidades com a inserção de produtos culturais emergentes e com a melhoria significativa das narrativas seriadas.

Outra consideração ser feita diz respeito aos métodos empregados pelos críticos para analisar produtos da TV, particularmente, os produtos seriados. Afinal, a grande produção de críticas sobre TV sempre esteve associada à teledramaturgia devido, sobretudo, a predominância e popularização deste formato no meio. Questões como os tipos de serialização e a fragmentação da narrativa impõem ao crítico desafios como a análise de episódios singulares, temporadas específicas, sem deixar de lado o todo orgânico que forma o conjunto de todas as temporadas.

Por outro lado, já podemos constatar propostas sistematizadas de análise surgidas na academia (O’DONNELL, 2007) que levam especialmente em conta os aspectos estéticos e formais da TV, os gêneros televisivos, a narrativa e os aspectos industriais do meio.

Convém salientar que um problema particular da apreciação destas ficções é a divergência entre os meios de expressão: a metalinguagem (texto verbal) é diferente da linguagem objeto (audiovisual seriado), conforme observa Machado (2007). Talvez por isso a argumentação descritiva dos críticos seja o modo mais próximo de diálogo entre as linguagens, daí uma perceptível ênfase aos elementos temáticos nas críticas jornalísticas, sobretudo no que diz respeito ao enredo desses produtos.

Enfim, a proposta desta comunicação será a de refletir sobre a crítica jornalística como parte integrante da experiência televisiva e sobre suas funções, métodos e limitações de análise, sobretudo no que diz respeito aos produtos de ficção seriada.

Bibliografia

CASETTI, Francesco; DE CHIO, Frederico. Analisis de la television. Madrid: Ediciones Paidos Ibérica, 1999

COELHO, Marcelo. Jornalismo e crítica. In:MARTINS, Maria Helena (org.). Rumos da crítica. São Paulo: Senac, 2000, 83-94

CUNHA, Tito Cardoso. Argumentação e crítica. Coimbra: MinervaCoimbra, 2004

MACHADO, Arlindo, VELEZ, Maria Lúcia. Questões metodológicas relacionadas à análise de televisão. São Paulo: Revista da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação, COMPÓS, 2007

MACHADO, Arlindo. A televisão levada a sério. São Paulo: Editora SENAC- SP, 2000

NEWCOMB, Horace (Ed.)Encyclopedia of television. 3 vols. Chigaco:Fitzroy Deaborn, 1997

O’DONNELL, Victoria.Television criticism. USA: Sage Publications, 2007

SOUZA, Maria Carmem Jacob (org.) Analisando telenovelas. São Paulo:E-papers, 2004

TORRES, E. Cintra. O crítico de televisão: para além do espectador profissional. In: ABRANTES, José Carlos (coord.). A construção do olhar. Lisboa:Livros Horizonte, 2005, p.51-61