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  Título
Poéticas da responsabilidade no cinema latino-americano
Autor
Sebastião Guilherme Albano
Resumo Expandido
À semelhança do sistema de substituição de importações, as políticas para o setor e mesmo a imaginação projetada pelo cinema da América Latina mantêm uma visão reflexiva em relação às cinematografias dos países considerados centrais, no que tange às ações afirmativas, de quotas de exibição etc., e às séries iconográficas selecionadas para o modelo de mundo apresentado. As quase inevitáveis conjunturas de dependência no que concernia à distribuição e à exibição, tópicos ordinários no debate acerca dos problemas das filmografias da região até bem pouco tempo atrás, foram suplantadas por um dado que consideramos mais discreto no sistema fílmico. Apresenta-se agora a reprodução sintagmática, quase um comentário ou uma reação, de paradigmas estéticos/narrativos não reportados diretamente com o habitus local, nem com sua cultura plástica, nem literária e nem mesmo de sua melhor tradição cinematográfica. Esse dado é oriundo de um processo de reação ou simplesmente de filiação revestido de empoderamento de matrizes e padrões iconográficos e de estruturas de planos e agora de estruturas de imagem negociados mormente nos estúdios de Hollywood, o que podemos resumir com a noção de visualidade cinematográfica hegemônica. Certamente não se pretende reivindicar uma possível norma vernácula de visualidade ou até de visibilidade, o que poderia levar-nos à reiteração da ideia de relativismo cultural ou algo que o valha, mas se tem consciência de um molde institucional historicamente predominante que delimita aspectos da sensibilidade cotidiana e da sensibilidade figurada, como a do cinema.

Não obstante, a situação certamente ocorre devido ao influxo de uma vertente da história mundial que no século passado pareceu consagrar um formato de sociedade projetado pela modernidade e que nos últimos vinte anos teve o Consenso de Washington, para a América Latina, como um dos marcos preceptores das ações do estado nacional liberal, a regra de organização política entre nós e em boa parte do mundo. A consagração da democracia representativa na maior parte da região não parece haver sido um lance de autodeterminação, mas a cristalização de uma série de proposições que foram conformando um único cenário possível para a dramatização do nosso destino. No caso das cinematografias nacionais, se o termo ainda for pertinente, em todos os seus planos de manifestação as argumentações pareceram favorecer seu alinhamento a certos regimes de produção, distribuição e exibição afeitos às condicionantes relativas principalmente ao alcance de público, com seus modelos de expectação calcados já no gosto infantilizado, e ao postulado do lucro tout court. Uma tal circunstância derivou em algo próximo ao processo que Max Weber denominou de ética da responsabilidade em contraposição à ética da convicção, e que adaptamos quase sem reparos para poética da responsabilidade, tamanha a intensidade da ponderação mercadológica que os agentes envolvidos no processo de concepção de um filme adotam na atualidade.



Bibliografia

FOLICOV, Tamara L. “Argentina’s Blockbuster Movies and the Politics of Culture under the Neoliberalism, 1989-1998”. In: Media, Culture and Society, 22-23, 2004, p. 327-342.

JAMESON, Frederic. “Notes on Globalization as a Philosophical Issue”. In: JAMESON, Frederic; MIYOSHI, Masao (Edts.). The Cultures of Globalization. Durhan, North Caroline: Dike University Press, 1998, p. 54-80.

LOPES, Denílson. “Cinema mundial, cinema global”. E-Compós, v. 13, n. 2 (2010).

SÁNCHEZ RUIZ, Enrique. “La industria cinematográfica del TLCAN: del ‘mercado libre’ a las políticas públicas”. In: CANCLINI, Néstor García; MONTECÓN, Ana Rosas; SÁNCHEZ RUIZ, Enrique (coords.). Situación actual y perscpectivas de la industria cinematográfica en México y en el extranjero. Guadalajara: Universidad de Guadalajara/Instituto Mexicano de Cinematografía, 2006, p. 11-85.