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  Título
Representações seminais de homens-objeto do cinema ao videoclipe
Autor
Rodrigo Ribeiro Barreto
Resumo Expandido
Marco inicial de uma pesquisa acerca da representação do corpo masculino no campo audiovisual, a comunicação proposta analisará comparativamente a erotização do homem em três obras: o curta-metragem Un Chant D’Amour (Jean Genet, 1950), o longa-metragem Querelle (Rainer Werner Fassbinder, 1982) e o videoclipe Cargo de Nuit (Jean-Baptiste Mondino, 1983). A seleção do corpus de análise está perpassada pela figura precursora e universo de Jean Genet, artista que aparece como diretor/roteirista do curta, como escritor do romance adaptado para o cinema e como assumida influência artística para o clipe. A originalidade da produção marginal deste realizador estimula a análise a se debruçar também sobre as repercussões de seu espírito autoral no cinema independente, aqui representado por Fassbinder, e no contemporâneo e emergente campo do videoclipe dos anos 1980, exemplificado pela parceria de Mondino com o cantor Axel Bauer.



O trabalho buscará descrever a construção de um olhar voyeurista e sexualmente objetificador voltado para personagens e performances masculinas. Esse homem que se exibe e serve de objeto de investimento erótico coloca-se em contraposição a representações masculinas dominantes no audiovisual, que – no entender de Laura Mulvey – não dariam espaço, ou nem mesmo suportariam, o peso da objetificação sexual. Do caráter desafiador de Un Chant D’Amour – somente lançado comercialmente em 1975 – até a extensão, a passos lentos, da presença midiática do homoerotismo a partir da década de 1980 (ilustrada por Querelle e Cargo de Nuit), acompanha-se uma diversificação e arejamento com relação às representações tradicionais de homens no audiovisual, que são fruto de gradativas mudanças culturais na atitude de realizadores e do público.



O propósito de apontar as possíveis declinações do masculino objetificado nos filmes e clipe escolhidos será alcançado por uma abordagem contexto-textual. Em viés inspirado por Pierre Bourdieu, pretende-se elucidar as condições de surgimento de tais representações transgressivas em função dos campos de produção, onde as obras se originaram, e da trajetória de seus realizadores. Em termos gerais, a abordagem proposta considerará ainda desde as diferenças de representação com base no gênero dos intérpretes/personagens – investigando o quanto ainda é factível a polarização entre ativo/masculino e passivo/feminino – até a maneira como está colocada a questão da orientação sexual, ou seja, como estão tematizadas e/ou manifestas a hetero e homossexualidades nas obras.



Concomitantemente, preconiza-se a atenção à composição interna das obras, sublinhando a incidência de diferentes elementos e escolhas sobre a representação masculina erotizada. O curta, o longa-metragem e o clipe analisados fazem, por exemplo, opções diferenciadas entre a narrativa e o espetáculo, que Chris Straayer (1996) apontou como estratégias de sexualização tendendo, respectivamente, à identificação e ao fetichismo. Na análise poética a ser efetuada, a investigação dessas tendências está relacionada à ocorrência ou não de uma história – e, em caso afirmativo, do grau de seu desenvolvimento –, ao tom geral e importância da mise en scène e à escolha entre aprofundamento ou investimento arquetípico dos personagens. Uma contribuição ainda mais específica para este trabalho é a análise feita por Richard Dyer (1992) de imagens de homens como espetáculo sexual. Mesmo notando a resistência cultural à idéia do masculino como algo a se exibir, o autor sugeriu alguns parâmetros úteis de observação para tais representações: a aparência e direção do olhar do retratado, os tipos de postura e de atividade mostrados, as características dos cenários das imagens e o pertencimento social e étnico do modelo. A abordagem preconizada pretende-se então elucidativa de formas artístico-expressivas instigantes, evidenciando como um amplo espectro de desejos eróticos pode regular desde o fazer artístico até a programação de efeitos das obras.
Bibliografia

BARRETO, R.. Parceiros no Clipe: A Atuação e os Estilos Autorais de Diretores e Artistas Musicais no Campo do Videoclipe a Partir das Colaborações Mondino/Madonna e Gondry/Björk. Salvador, 2009. 230 f. Tese (Doutorado) – Programa de Pós-graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas. Faculdade de Comunicação, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2009.

BEAUVAIS, Yan. Kenneth Anger, Gregory Markopoulos et Jean Genet. Vertigo, n. 14, p. 63-64, 1996.

BOURDIEU, P.. As regras da arte. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, 431 p.

DYER, R.. Don’t Look Now: The Male Pin-up. In: CAUGHIE, J.; KUHN, A.; MERCK, M. (ed.). The Sexual Subject – A Screen Reader in Sexuality. New York/London: Routledge, 1992, p. 265-276.

MULVEY, L.. Visual Pleasure and Narrative Cinema. In: BAUDRY, L.; COHEN, M. Film Theory and Criticism. New York: Oxford UP, 1999, p. 833-44.

STRAAYER, C.. Deviant Eyes, Deviant Bodies – Sexual Re-orientation in Film and Videos. New York: Columbia University Press, 1996, 349 p.