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  Título
Relações possíveis na produção e recepção de instalações interativas
Autor
Fernanda de Oliveira Gomes
Resumo Expandido
Desde os anos 90 a prática artística vem se concentrando na esfera das relações humanas. O artista passa a buscar, cada vez mais claramente, as relações que seu trabalho vai criar com o público. A função da arte contemporânea passa então pela invenção de linhas de fuga individuais ou coletivas, construções provisórias e nômades, através das quais o artista propõe situações que provocam seus espectadores. Uma obra cria no interior do seu modo de produção e no momento de sua exposição uma coletividade instantânea de “espectadores participantes”. A arte, feita da mesma matéria que as trocas sociais, ocupa um lugar particular na produção coletiva. Uma obra de arte possui uma qualidade que a diferencia dos demais produtos da atividade humana: sua relativa transparência social. A partir de considerações de Nicolas Bourriaud (2006), pode-se dizer que a obra de arte pode mostrar ou sugerir seu processo de fabricação e de produção, sua posição nesse jogo de trocas possíveis, o lugar e a função que estabelece para quem ou o que se olha e os comportamentos criadores de artistas, técnicos e espectadores. No processo de formatação de um espaço de recepção, percebemos que a configuração coletiva estimula a instauração de uma rede de criação, na qual os indivíduos, juntos, estabelecem um jogo de improvisação comportamental. Este é o caso da instalação “Pare de me ignorar”, da autora deste trabalho, que foi pensada como um espaço de recepção coletiva, no qual os comportamentos se contaminam e se estimulam. Na visão de Hélio Oiticica (1986), o artista, menos que aquele que cria, é quem propõe, motiva e orienta a criação. O artista não é mais o que assina a obra, mas o que desencadeia experiências coletivas. Oiticica não se classificava como um artista plástico, mas como um inventor, como aquele que despertava em seu participador o estado de invenção. A intenção do artista é colocada por Jean-Louis Boissier (2009) como algo inerente ao processo semiótico, que não pode ser confundida com a significação da obra. A interatividade é tecnicamente trabalhada a partir do objetivo do autor em estabelecer um jogo com o “espectador performer” , solicitando-o de maneira cada vez mais diferenciada. A “obra aberta por excelência” foi descrita por Anne-Marie Duguet (2009) como constantemente atualizável e variável, oferecendo-se a uma infinidade de interpretações e sem nunca poder ser um produto acabado. Em algumas obras interativas, a intenção se desloca da autora para o objeto, incluindo o “espectador performer” e privilegiando as relações que poderão ser estabelecidas a partir dos comportamentos e posicionamentos. Umberto Eco (1988) aponta a instauração de um novo tipo de relação entre artista e público, a partir desta poética da obra em movimento, levantando problemas práticos que surgem com a criação de situações comunicativas e de um novo diálogo entre contemplação e uso. Nesse processo, o importante é a relação de presença, com seus desdobramentos perceptivos, interpretativos e participativos e não uma relação de representação. O papel do criador, segundo Umberto Eco, seria o de organizar uma dialética entre a ordem e a desordem, entre a previsibilidade e a imprevisibilidade, entre forma e abertura.
Bibliografia

BOISSIER, Jean-Louis. A Imagem Relação. In: MACIEL, Kátia (org). Transcinemas. Rio de Janeiro: Contracapa, 2009. BOURRIAUD, Nicolas. Estética relacional. Buenos Aires: Adriana Hidalgo editora, 2006. DELEUZE, Gilles. Espinosa: Filosofia prática. São Paulo: Escuta, 2002. DUGUET, Anne-Marie. Dispositivos. In: MACIEL, Kátia (org). Transcinemas. Rio de Janeiro: Contracapa, 2009. ECO, Umberto. Obra Aberta. São Paulo: Editora Perspectiva, 1988. MACHADO, Arlindo. Repensando Flusser e as imagens técnicas. In: LEÃO, Lúcia (org). InterLab: Labirintos do pensamento contemporâneo. São Paulo: Iluminuras-FAPESP, 2002. OITICICA, Hélio. Aspiro ao grande labirinto. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.