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  Título
O diário filmado e sua relação com o cinema documentário
Autor
José Francisco Serafim
Resumo Expandido
A biografia e também a autobiografia sempre estiveram presentes nas formas de representação imagéticas tanto na pintura como mais tarde no cinema. Auto-retratos são frequentes nas obras de pintores até os dias atuais, e no cinema os pais fundadores, Irmãos Lumière vão se auto representar já em suas primeiras obras. Essa representação de si e/ou dos próximos estará presente em muitas obras desse que é considerado o primeiro cinema, o interesse em se mostrar e se dar a ver através do filme passa desse primeiro momento ainda bastante naïf, para outro mais discursivo, sobretudo, a partir dos anos 1980, com o advento e incremento de equipamentos videográficos que possibilitam maior autonomia e barateamento de custo da realização de um produto audiovisual, como observa Raymond Bellour “é o vídeo, a arte do vídeo, que me parece corresponder ao que estari mais próximo desta transformação retórica no espaço moderno da subjetividade” (1988:344). O “eu” continua presente nesses produtos, seja através de questões pontuais que utilizam o filme para discutir/mostrar aspectos do privado e do intimo, mas sem levar em conta a continuidade e longa duração. Uma das vertentes desse tipo de documentário é aquela que está interessada em uma temporalidade expandida, e que se filia ao diário escrito empreendido seja por anônimos ou pessoas célebres. No caso do cinema e do filme documentário essa forma de auto-representação será utilizada por alguns realizadores para que possamos compreender seus états d’âme, e inquietações face ao mundo. Diferentemente do diário escrito que no mais das vezes não é empreendido para ser publicizado, o diário filmado quase sempre é pensado para ser exibido junto a um público, por mais pessoal que seja a abordagem de muitos dos temas desses filmes. Essa comunicação busca compreender a gênese do interesse de alguns realizadores por esse subgênero, que de alguma forma dialoga com esse gênero do intimo por excelência que é o diário escrito, para tal a análise parte de dois exemplos bastante distintos de diários, o de Sophie Calle e Greg Shepard, No sex last night (1992) e o de David Perlov e seus Diários (1973 – 1985). Sophie Calle, artista francesa, realizadora e fotógrafa nesse filme de 1992, realizado em conjunto com o companheiro G. Shepard, conta suas agruras conjugais com o então companheiro, mas com quem tem constantes conflitos, e como leitmotiv, temos a frase “no sex last night” que pontua cada um dos dias desse road-movie. Quanto à obra de David Perlov, seus diários são um dos exemplos mais contundentes da possibilidade de utilização do diário escrito transposto para outro formato, ou seja, o filme. Realizado durante uma longa duração, de 1973 a 1985, os diários nos mostram a vida, a família, a cidade os problemas vivenciados pelo cineasta ao longo de seis capítulos, cada um deles realizado com temporalidades diferenciadas, desde vários anos até alguns meses. Temos à diferença do primeiro filme, diário egocêntrico por excelência, no segundo caso, o de Perlov, algo mais transcendental, que vai além das inquietações domésticas e familiares do cineasta, pois será justamente através delas que tomaremos conhecimento dos graves problemas enfrentados pelo país onde vive o realizador. Esses dois exemplos emblemáticos, mas não isolados na produção documental contemporânea, têm inúmeros pontos em comum com outras obras que seguem essa vertente do intimo, mas raras obras foram realizadas com a amplitude temporal, sobretudo quando pensamos nos Diários de Perlov. Na atualidade muitas são as formas de representação do “eu” na cultura midiática, tanto na literatura, no cinema, na televisão, na internet etc. É interessante que esses produtos sempre encontram públicos ávidos para entrar na intimidade de pessoas famosas ou desconhecidas. Busca-se trazer aqui algumas considerações e análise de dois desses produtos realizados segundo propostas estético-formais distintas, mas que nos revelam aspectos do íntimo de seus realizadores.
Bibliografia

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BEAUVAIS, Yann & BOUHOURS, Jean-Michel. “Le je à la caméra”, In Beauvais, Yann e Jean-Michel Bouhours (orgs.) Le je filmé. Paris: Ed. du Centre Georges Pompidou, 1995.

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BERNARDET, Jean-Claude. “Os catadores e eu”, In Retrospectiva Agnès Varda. O movimento perpétuo do olhar. Rio d Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil, 2006, pp. 25-27.

GREEF, Willen de. “Digressions sur le journal flmé”, In Beauvais, Yann e Jean-Michel Bouhours (orgs.) Le je filmé. Paris: Ed. du Centre Georges Pompidou, 1995.

LEJEUNE, Philippe. “Le Pacte autobiographique, Paris : Seuil, 1975.

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SIBILIA, Paula. O show do eu. A intimidade como espetáculo, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.