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  Título
Comédia (chanchada) à portuguesa, anos 30, 40 e 50
Autor
Afrânio Mendes Catani
Resumo Expandido
Uma parte expressiva dos intelectuais portugueses experimenta, entendo, relações no mínimo ambíguas com alguns gêneros produção cinematográfica do país. Forneço dois exemplos: vários amigos lusos não gostam sequer de ouvir menção ao nome do diretor Manoel de Oliveira (1908), caracterizado como possuidor de uma maneira de filmar que desvaloriza pessoas e estilos de pensar e de agir do povo português, ou mesmo detentor de estilo iconoclasta que tudo simplifica. Por outro lado, valorizam os documentários que rodou nas décadas de 1930, 40, 50 e mesmo depois. Certa feita, tornei desagradável uma discussão por defender com unhas e dentes Viagem ao princípio do mundo (1997), que avalio como uma dos filmes mais belos a que assisti. O segundo exemplo envolve o presente texto: comentei com amigos de Portugal que apresentaria um trabalho no encontro da SOCINE sobre “comédias portuguesas antigas”, resultado de “máquina de sonhos a preto e branco”, na feliz expressão de Paulo Jorge Granja (2000). A reação foi desanimadora: me disseram que eu iria ver montões de filmes e de musicais mal concebidos e improvisados, frutos de humores forçados, de representações totalmente ultrapassadas e de conivências amplas com a férrea censura praticada pelo Estado Novo (1932-1974), principalmente no governo de António de Oliveira Salazar (1932-1968). Mencionei que minhas observações seriam realizadas a partir de uma amostra que envolvia 8 filmes que considero significativos do período, quais sejam: A Canção de Lisboa (1933), de José Cottineli Telmo; Maria Papoila (1937), de Leitão de Barros; Aldeia da Roupa Branca (1938), de Chianca de Garcia; O Pai Tirano (1941), de António Lopes Ribeiro; O Pátio das Cantigas (1942), de Francisco Ribeiro, completada por três películas dirigidas por Arthur Duarte, a saber, O Costa do Castelo (1943), O Leão da Estrela (1947) e O Grande Elias (1950). Não me abalei e segui em frente (ouvi várias restrições, em doses distintas, é verdade, quando José Inácio de Melo Souza e eu decidimos escrever um pequeno livro sobre as chanchadas brasileiras há quase trinta anos). Apresento, a partir de agora, considerações acerca dessas saborosas comédias portuguesas. Tais fitas são, em grande medida, muito semelhantes às chanchadas brasileiras, uma vez que acabam por se basear em fórmulas de sucesso garantido, implicando na adaptação de revistas teatrais e musicais que já haviam granjeado a simpatia do público; há sempre vilões, mocinhos e pares amorosos que se encontram envolvidos em uma série de situações dúbias, levando a uma desvantagem inicial do galã para, posteriormente, tudo se ajustar a seu favor. Tais produções apresentam uma quantidade considerável de números musicais, bem como elencos fixos, além de argumentistas e roteiristas de excelente qualidade, que logram captar o linguajar da população das cidades portuguesas, os problemas quotidianos dos segmentos mais humildes e os conflitos envolvendo a cidade e o campo. O que move a maioria dos enredos dos filmes é um equívoco ou dubiedade provocado por um dos núcleos que compõem a história – na fórmula mais comum encontramos vários membros de uma família que, valendo-se de uma série de artimanhas e de picardia, consegue sobreviver extorquindo dinheiro e outros meios de parentes ou pessoas que estão em excelente situação financeira; a revelação da situação real causa sério conflito que, no final, acaba sendo sanado favoravelmente ao lado explorador, que acaba se regenerando). Tais comédias obtiveram amplo sucesso de público em virtude de apresentarem imagens em que os protagonistas são tipos simples (lavadeiras, merceeiros, floristas, donas de pensão, caixeiros, sapateiros, motoristas, dançarinas, viciados em jogos, torcedores de futebol) que se envolvem em ações equivocadas e de duplo sentido, que têm o linguajar das ruas, que circulam por belas arquiteturas urbanas, quase sempre ao som da música popular portuguesa de então – esse é, creio, o fascínio de um estudo dessa natureza.
Bibliografia

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BAPTISTA, T.. A invenção do cinema português. Lisboa: Tinta-da-China, 2010.

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GRANJA, P. J. A comédia à portuguesa, ou a máquina de sonhos a preto e branco do Estado Novo. In: TORGAL, L. R. (coord.). O cinema sob o olhar de Salazar. Lisboa: Círculo de Leitores, 2000.

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VIEIRA, J. L. A chanchada e o cinema carioca (1930-1955). In: RAMOS, F. (Org.). História do cinema brasileiro. São Paulo: Art Editora, 19