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  Título
Imagens profanas: a dimensão política do Cinema de Harun Farocki
Autor
SIOMARA GOMES FARIA
Resumo Expandido
As produções cinematográficas vêm ganhando uma dimensão ampliada no que se refere aos usos e apropriações dadas pelos sujeitos, graças, sobretudo, ao acervo infindável acumulado desde o surgimento da imagem em movimento e à disponibilização desses arquivos e bancos de dados para consumo. Uma memória do mundo se constrói a partir desses registros que captam e armazenam cenas da vida pública e privada, produzindo um ilimitado estoque de imagens. Postos diante desse numeroso acervo, que não mais se encontra recluso aos meios de distribuição convencionais, os sujeitos inauguram novas formas de consumo que, muitas das vezes, desviam por completo a finalidade e o sentido originalmente propostos. Há, em alguma medida, uma interposição entre as funções de consumir e produzir, reconfiguradas num contexto em que os consumidores se tornam criadores em potencial, e os realizadores assumem também a condição de consumidores, na medida em que se apropriam de imagens criadas por terceiros, reciclando-as e atribuindo-lhes um novo uso. Como observa Giorgio Agamben, os dispositivos de regulamentação da sociedade de consumo buscam situar os produtos num espaço privado do uso propriamente dito, fazendo com que toda a produção, material ou simbólica, permaneça inapropriada, intacta. Nesse sentido, os dispositivos permaneceriam fora do domínio da experiência para adentrarem um terreno sagrado, improfanável. Entendendo o profano como algo que restitui ao uso comum aquilo que teria sido anteriormente atribuído à esfera do sagrado, Agamben aponta na ação dos homens algumas formas de profanação, na medida em que desativam os dispositivos de poder que tornam os objetos separados do uso, para contaminá-los pela ação mundana. Numa sociedade em que espetáculo e mercadoria estão intrinsecamente ligados, a relação dos sujeitos com as imagens germina uma batalha política por voz e visibilidade fundada num terreno eminentemente estético. No livro A Partilha do Sensível – Estética e Política, Jacques Rancière define as práticas políticas como aquilo que historicamente transforma a ordem sensível – espaços, tempos e tipos de atividades – por meio de um deslocamento que instaura o dissenso sobre a conformidade. Na visão do autor, toda ordem, embora consensual, torna visível alguns grupos na medida em que exclui outros. A base da política estrutura-se no desentendimento entre aqueles que figuram no campo de visibilidade e os que estão à margem, ou seja, no dano causado sobre a ordem pelos “sem-parcela”. Inserida num contexto sócio-histórico em que a ação dos media e dos processos de produção e difusão de informação situam-se no cerne da ordem política e econômica, consolidando a estrutura hierárquica da sociedade, a obra do cineasta Harun Farocki pode ser tomada como uma arte que vai de encontro aos preceitos da sociedade do espetáculo, na medida em que desestabiliza os valores firmados pelos regimes de produção e exibição de imagens. Ao criar narrativas documentais a partir da combinação entre imagens institucionais, pertencentes aos sistemas legitimados pela sociedade; e imagens produzidas por pessoas comuns e realizadores autônomos, Farocki provoca o confronto entre diferentes discursos, fundando um novo tipo de experiência e de subjetivação política. Em seus filmes, o diretor promove o desvio da natureza sensível e inteligível dos arquivos utilizados como matéria bruta para ampliar o sentido das imagens e criar uma nova atitude perceptiva. Na apresentação, serão discutidos os filmes Imagens da Prisão (Gefängnisbilder, 2000); e Videogramas de uma revolução (Videogramme einer Revolution, 2001), de Harun Farocki, documentários que promovem uma reflexão sobre o papel das tecnologias de produção e reprodução de imagens na composição de uma espécie de registro do mundo, atentando para as relações que se estabelecem entre imagem, poder e sociedade.
Bibliografia

• AGAMBEN, Giorgio. Elogio da Profanação. In: Profanações. São Paulo: Boitempo, 2007. • BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994. – (Obras escolhidas; v.1) • BRAGA, José Luiz. Sobre “mediatização” como processo interacional de referência. In: XV Compôs, Bauru-SP, 2006. • CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano 1. Artes de fazer. Ed. Petrópoles, RJ: Vozes, 1994. • DEBORD, Guy. A Sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997. • FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir – História da violência nas prisões. Ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009. • RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: EXO experimental org,; Ed. 34, 2005.