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  Título
Acordos político-comerciais e produção cinematográfica no Cone Sul
Autor
Gabriela Morena de Mello Chaves
Resumo Expandido
No cinema, o Mercosul estabeleceu-se como um marco de reflexão sobre a realidade sul-americana; dele derivaram iniciativas de produção e exibição conjuntas, festivais, estabeleceram-se canais para debates e intercâmbios. Em simultâneo a esta abertura para diálogos internacionais, as técnicas e o modo de difusão da atividade cinematográfica evoluíram, o cinema retomou seu ritmo de produção na América do Sul e, assim, a atividade cinematográfica na região começava a se (re) estabelecer.



Neste mesmo período, a crise econômica compartilhada pelos países da região acabou por levar o setor a uma busca por soluções que viabilizassem a atividade. Embalados pelo discurso de integração, auxílio mútuo e reciprocidade do bloco, os profissionais da cadeia cinematográfica iniciaram um movimento em busca da rentabilização de recursos e ampliação do mercado para o fortalecimento e amadurecimento de suas filmografias. Estes traços de eficiência produtora e mercadológica em nada lembram a experiência anterior de integração sócio-cultural através do cinema assistida na América do Cinema-Novo, mas, sem dúvida, trazem repercussões ao processo de intercâmbio que volta a ser intensificado no continente depois dos anos de isolamento político e aproximações militares.



Ainda que em termos práticos pouco tenha sido realizado na área do cinema, e mesmo da cultura, no Mercosul e nos países associados, as diretrizes da experiência estão presentes no cinema que vem se fortalecendo. O debate inaugurado pelo projeto do Mercosul contribuiu ainda para que, uma vez revigoradas as cinematografias sul-americanas, os realizadores dessas cinematografias pudessem reconhecer suas debilidades, desafios, forças e o cenário econômico, político e cultural no qual estão inseridos.



No entanto, ameaçadas pelo domínio dos estúdios e das majors norte-americanas, a indústria de cinema sul-americana conta com o apoio do Estado e depende dele para produzir. Esta relação entre Estado e produção cinematográfica hoje está melhor estabelecida na Argentina do que nos outros países, mas se faz igualmente vital em todos eles. O conjunto da obra produzida na região nos últimos dez anos indica que a presença do Estado a favor do cinema nacional, através de concursos, prêmios, incentivos fiscais, subsídios, preservação ou outras inúmeras formas de apoio, é indispensável para gerar imagens que expressem os imaginários coletivos e a identidade cultural de cada comunidade. Desta forma o Estado mantém uma função primordial nos processos de aproximação internacional, assegurando e facilitando o fluxo de trocas que os mercados estabelecem. Ao fazê-lo, multiplicam-se interligações culturais e faz circular idéias que poderão constituir elementos de aproximação, ou de abertura, entre os povos. Assim, a cultura pode desempenhar um papel importante na superação de barreiras convencionais entre os povos; na promoção ou estímulo de mecanismos de compreensão mútua; na geração de familiaridade ou redução de áreas de desconfiança. Da análise das muitas realizações que contribuíram para alterar a geografia da circulação cinematográfica na América do Sul, compreende-se que a predisposição dos organismos governamentais é um catalizador do processo de integração política, econômica e cultural.



Neste sentido é importante destacar que o Mercosul Cultural não cumpriu plenamente sua função, ou explorou fortemente seu potencial. A análise da proposta original do Mercosul Cultural leva à percepção do pouco avanço do projeto desde os anos 90. Muitos são os fatores que podem ter influenciado a lentidão do processo de integração pretendido, entretanto, a mediação estatal e as ações de políticas culturais seriam capazes de transpor estas barreiras e de promover produções simbólicas próprias e relações transnacionais equitativas, numa região que hoje se revela muito mais densa e interdependente.

Bibliografia

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www.recam.org.

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