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  Título
O Conformista: conflitos políticos e morais sob o manto do autoritarismo
Autor
José de Sousa M iguel Lopes
Resumo Expandido
Neste texto analisa-se o filme O Conformista no qual se colocam em oposição o regime fascista italiano a um personagem (Marcello) freudianamente torturado, sexualmente reprimido, que ingressa na polícia política do fascismo quase que inadvertidamente, acabando por deixar-se levar e ser atropelado pela história. Competente adaptação do romance de Moravia, que se constitui num bem elaborado estudo do caráter de um fascista que encontra no conformismo a válvula de escape para as obsessões homoeróticas supostamente adquiridas em um episódio de abuso sexual na infância. Enquanto que o romance de Moravia assenta em uma modalidade puramente linear de narração, começando com a infância de Marcello e evoluindo até á queda do governo de Mussolini, Bertolucci começa seu filme com os momentos finais, com Marcello, o personagem principal, esperando, em um quarto de hotel em Paris, uma chamada telefônica que o encaminhará ao homicídio do professor. Bertolucci realiza uma crítica perspicaz à ditadura de extrema direita e de seu efeito sobre o ser humano. Fundindo o destino de Marcello com o da Itália, Bertolucci torna o filme um pretexto para uma série de pertinentes comentários sobre a política italiana. O filme é um estudo de caso na psicologia do fascismo: Marcello é um homem burocrático deformado por uma família disfuncional da classe média e por um traumatismo sexual da infância. A característica mais impressionante do Conformista é o seu grande refinamento visual, uma fascinante descoberta estilística, com arrebatadores movimentos de câmera, a utilização de ângulos oblíquos, e a inovadora edição aplicada brilhantemente por Bertolucci às temáticas dos conflitos interiores. Procura-se neste texto estabelecer a relação entre conformismo, maturidade moral e educação. O homem é tanto mais livre quanto mais alargado for o campo dos seus possíveis e quanto maior for a consciência em relação ao caráter moral das suas escolhas. Claro que esta consciência representa, inevitavelmente, um acréscimo de incomodidade e de desassossego. A maturidade do ser livre implica a responsabilidade. Ser livre é saber que a liberdade está em perigo. E esta é, como sabemos, uma das grandes finalidade da educação, tornar as pessoas capazes de fazer a sua diferença no tempo, contra a indiferença, a descrença, o pessimismo e a (tentação de inocência). Falamos nesse sentido na necessidade de um compromisso ético. O conformismo retira das pessoas qualquer crença nas condições de mudança, como se qualquer iniciativa fosse em vão. A participação política do indivíduo depende de inúmeros fatores e não somente, e talvez nem mesmo de forma particularmente significativa, de seu nível de desenvolvimento moral. A verdade é que o autoritarismo, todos o sabemos, mata, em princípio, a autonomia. O que o autoritário pretende, com efeito, não é que o outro seja autônomo, mas obediente; não que pense por si, mas que acredite; não que critique, mas que absorva; não que aja segundo a sua consciência, mas que se conforme à norma. O autoritarismo cria escravos, não homens autônomos. Cria Marcellos Clericis, como esse personagem conformista tão bem retratado por Bertolucci. Por último, defende-se, nesta análise, um sistema educacional que produza alunos criativos, inconformados, livres para aprofundar seus talentos, incentivados a pensar por conta própria e obcecados em melhorar o mundo. Só assim, a educação poderá assumir com sentido de dignidade e responsabilidade, a tarefa de ajudar a dar rosto ao futuro.
Bibliografia

BERTOLUCCI, Bernardo. O Conformista (Il Conformista, Itália, 1970, 115 minutos).DVD Filmes do Estação.

FELDMAN, Stanley. Enforcing social conformity: a theory of authoritarism. Political Psychology. v. 24, n. 1, 2003. p. 41-74.

MILGRAM, Stanley. Obediência à autoridade. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1983.