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  Título
A criação sonora na pós-produção de Ensaio sobre a cegueira
Autor
Kira Santos Pereira
Resumo Expandido
A apresentação divilgará a investigação sobre as etapas finais do processo de criação do som do filme Ensaio Sobre a Cegueira, através de entrevistas e recuperação de material memorial dos membros da equipe. Os materiais foram analisados segundo a metodologia da Crítica de Processos como proposto por Cecília Salles. São abordadas também as relações audiovisuais das várias versões de filme, seguindo os preceitos propostos por Michel Chion, Robert Bresson e Randy Thom. Em sua tese de doutorado, O Som no Cinema: da Edição de Som ao Sound Design (2005), Luiz Adelmo Manzano entrevistou uma série de profissionais brasileiros que trabalham com som para cinema. Todos eles, em algum momento da entrevista, colocam que em sua experiência é muito raro trabalhar com um diretor que tenha um pensamento criativo sobre o som, e uma consciência do papel deste na construção da narrativa do próprio filme. Acabam por confiar ao profissional do som – Editor ou Sound Designer - a exploração das possibilidades sonoras de seu filme. Além disso, este profissional via de regra é contatado depois que o filme já foi rodado, e por vezes já com a montagem de imagens fechada. Na minha experiência como editora de som e técnica de som direto, percebo que se o som não foi considerado como ferramenta narrativa ao menos na fase de montagem, muitas vezes não há mesmo espaço físico para se trabalhar ruídos e ambientes significativamente, pois em muitos não é reservado tempo de escuta para os demais sons além do diálogo. Ao acompanhar o desenvolvimento do pensamento sonoro num filme específico, buscou-se compreender mais detalhada e profundamente as conseqüências de um pensamento sonoro inicial para o resultado final da obra cinematográfica. Para tanto, primeiramente analisei alguns registros da criação do filme: a primeira e a sétima versões de montagem, bem como as sessões de pré-mixagem. Elegi algumas das seqüências para serem analisadas com mais cuidado, buscando as transformações ocorridas a cada etapa e privilegiando as cenas onde o som exercesse em ao menos alguma das versões um papel ativo na narrativa – trazendo dados novos, exercendo relação de redundância ou ênfase para com as informações trazidas pela imagem ou pelo texto, ajudando o espectador a se envolver com a estória. Realizei então entrevistas com alguns dos profissionais que trabalharam no filme. Sobre a fase de pós-produção, entrevistei o diretor (Fernando Meirelles), o montador (Daniel Rezende), o editor de som (Alessandro Laroca), o músico (Marco Antonio Guimarães) e o mixador (Armando Torres Júnior). O objetivo destas entrevistas foi montar um mosaico de idéias e memórias, tentando descobrir como se construiu o conceito geral do filme e os conceitos de cada área em sua relação com o todo. O trabalho de Daniel Rezende como montador foi diversas vezes destacado, por Meirelles e Laroca, como um dos principais responsáveis pelo desenho de som do filme. Corrobora essa percepção a observação das diversas versões no AVID, onde os principais sons, as relações entre cenas ruidosas e silenciosas, os timbres, já podem ser encontrados. Coube à edição de som a função de melhorar tecnicamente e propor soluções estéticas que seguissem a mesma linha já traçada na etapa anterior. Rezende valoriza, no entanto, as contribuições de Laroca para o desenho de som, já durante a montagem: “Sempre quando já temos um corte digno de mostragem, ele aparece para começar a entrar no filme e dar seus valiosos comentários. Sempre ouvimos a opinião do Laroca e ele sempre contribui demais para o desenho do som.” Também em entrevista, Rezende destaca que todo esse trabalho na montagem já torna o desenho de som muito mais orgânico ao filme. O som não é uma camada externa que procura se aderir às imagens ou encontrar espaços entre os diálogos, mas imagem e som fazem parte da mesma estrutura fundamental à construção do filme. Serão apresentados alguns exemplos de cenas onde pode-se observar esse funcionamento.
Bibliografia

BRESSON, Robert. 2005. Notas sobre o cinematógrafo. São Paulo: Iluminuras. CHION, Michel. 1994. Audio-vision: sound on screen. New York: Columbia University Press EISEINTEIN, Sergei. 1990 A forma do filme. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor _________________. 2000. Walter Murch: A revolução no pensamento sonoro cinematográfico. Tese (doutorado) ECA/USP. São Paulo, ECA/USP SALLES, Cecília Almeida. 2004. Gesto Inacabado: Processo de criação artística. São Paulo: Annablume. _________. 2006. Redes da Criação: Processo de criação artística. Vinhedo: Editora Horizonte _________. 2008. Crítica Genética – Fundamentos sobre o processo de criação artística. São Paulo: EDUC. SCHAFER, R. Murray. 2001. A AFINAÇÃO DO MUNDO. Uma exploração pioneira pela história passada e pelo atual estado do mais negligenciado aspecto do nosso ambiente: a paisagem sonora. São Paulo: Editora UNESP. WEIS, Elizabeth e John Belton. 1985. Film sound: theory and practice. New York, Columbia University Press.