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  Título
O Homem da Palma de Ouro - um produtor na história do cinema paulista
Autor
LUCIANO VAZ FERREIRA RAMOS
Resumo Expandido
A partir de um episódio dramático e significativo na carreira de seu personagem central, o texto visa revelar a importância de uma pesquisa em curso: a trajetória da Cinedistri, como capítulo da história do cinema paulista. Em dezembro de 1980, o produtor de “O Pagador de Promessas”, Oswaldo Massaini deu início a um processo criminal contra o diretor Anselmo Duarte, que se apossara do troféu representativo da vitória que ambos conquistaram no Festival de Cannes, em 1962. Baseado em peça teatral de Dias Gomes, aquele foi o único filme brasileiro a ser agraciado, até hoje, com a Palma de Ouro. Por coincidência, em termos cronológicos todos os capítulos desse incidente coincidem com a ascensão e a crise da chamada “teoria do autor” que, como efeito colateral, permitiu que boa parte da historiografia cinematográfica se reduzisse a uma história dos diretores e suas obras. Do ponto de vista jurídico, a questão da paternidade de “O Pagador de Promessas” ainda não foi resolvida, apesar do falecimento dos dois antagonistas no processo, e da Palma de Ouro estar agora exposta na cidade de Salto, onde nasceu Anselmo Duarte. Em termos teóricos, Pasolini, Barthes e Foucault já lançaram severas e dificilmente refutáveis restrições à noção de autor no cinema – mesmo que ainda hoje, ela seja amplamente vista como uma instância determinante, pairando soberana acima da esfera econômica. Esse conflito entre produtor e diretor em função da posse da Palma de Ouro constitui o gancho motivacional para apresentar este levantamento sobre a história da produção e da comercialização de filmes em São Paulo. O período abordado se inicia em 1946, com o lançamento de “O Ébrio”, produção da Cinédia em que Oswaldo Massaini trabalhou como distribuidor, e se encerra com a extinção da Embrafilme em 1990. Mas avança no tempo um pouco mais, porque a Cinedistri que ele fundou deixou sucessores ainda em atividade. As idéias do crítico Jean-Claude Bernardet aparecem neste texto como motivadoras de uma investigação voltada para a necessidade de conhecer melhor os meandros e a lógica de uma trajetória empresarial comprometida com a produção e a distribuição de filmes, para formar um quadro mais nítido da história do cinema brasileiro. Na recente reedição de “Cinema Brasileiro – propostas para uma história”, ele coloca os produtores no centro das reflexões e mostra que é necessário compreender as estruturas de produção para entender a história do cinema. Em depoimento exclusivo para esta pesquisa, Bernardet acrescenta que esse esforço deve se voltar para a trama produtiva como um todo e não apenas para a realização de obras de interesse cultural. Ele declara que “de modo geral, críticos, ensaístas e historiadores − inclusive eu mesmo − tendem a deixar de lado o cinema de grande público. Talvez por estarem mais preocupados com as questões de ruptura do que com as grandes continuidades”. Pois é justamente essa grande continuidade de mais de meio século que representa o corpus deste trabalho.

Veremos que a Cinedistri se caracterizava por um procedimento mais adequado às condições concretas da época que o da Vera Cruz. Por sua vez, a Atlântida praticamente apostou num único tipo de filme que era a chanchada, enquanto Massaini previu a transitoriedade daquele gênero de comédia musical e passou a trabalhar em várias frentes, diversificando a produção. O conjunto de pilares empresariais (unicidade, continuidade, estabilidade, intencionalidade e flexibilidade) por ele montado, entretanto, não foi suficiente para atenuar o impacto econômico da Embrafilme, como nota Jean-Claude Bernardet em depoimento gravado:

"A distribuição de filmes brasileiros acabou sendo canalizada para o Estado, com a Embrafilme e demais órgãos estatais. Isso tirou o chão debaixo da Cinedistri, e Massaini se viu sem aquele mecanismo todo que ele tinha montado durante décadas e que funcionava muito bem... com certeza a concentração estatal fez com que o Massaini deixasse de ter filmes para distribuir."
Bibliografia

ABREU, Nuno Cesar. Boca do Lixo – Cinema e Classes Populares. Campinas: UNICAMP, 2006.

AUMONT, Jacques. As teorias dos cineastas. São Paulo: Papirus, 2002.

BERNARDET, Jean-Claude. Cinema Brasileiro – propostas para uma história. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

_____________________ O Autor no Cinema. São Paulo: Brasiliense e Edusp, 1994.

GALVÃO, Maria Rita. Crônica do Cinema Paulistano. São Paulo: Ática, 1975.

MIRANDA, Luiz F.A. Dicionário de Cineastas Brasileiros. São Paulo: Art Editora, 1990

RAMOS, Fernão (org) Enciclopédia do Cinema Brasileiro. São Paulo: Senac, 2003.

_____________ (org) História do Cinema Brasileiro. São Paulo: Art, 1987

ROCHA, Glauber. Revisão crítica do cinema brasileiro. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.

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