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  Título
A Espiral: um "filme-dossiê" montado em arquivos
Autor
Carolina Amaral de Aguiar
Resumo Expandido
“A Espiral” surgiu do reencontro de Armand Mattelart e Chris Marker na França, logo após o golpe de Estado de 1973. O sociólogo, que havia vivido por 11 anos no Chile, estudava os meios de comunicação durante a Unidade Popular, desenvolvendo a tese de que a burguesia chilena articulou uma “frente de massa leninista de direita” com a colaboração da imprensa e de seus agentes. Marker lhe propôs expor suas ideias e sua experiência militante por meio de um documentário.

“A Espiral” se tornou possível a partir de uma extensa pesquisa das montadoras Jacqueline Meppiel e Valérie Mayoux, além de Sylvio Tendler e Mattelart. Entre os locais consultados estavam cinematecas, arquivos de televisão norte-americanos e europeus e o ICAIC. Foram usados principalmente três tipos de insertos audiovisuais: 1) filmes de autores militantes, como Patrício Guzmán, outros chilenos e o cubano Santiago Álvarez; 2) Noticiários da Chile Films; 3) Reportagens de redes de televisões de várias partes do mundo, quais muitas traziam originalmente enfoques de direita.

A voz over é a principal responsável por manter uma coerência narrativa e assegurar a tese do filme. Transmite-se, assim, a sensação de que todos os documentos, apesar de registrados em momentos, lugares e situações distintos, fazem parte de um mesmo processo.

Devido à sua montagem e à forma de articulação dos documentos encontrados, Serge Toubiana caracteriza “A Espiral” como um “dossiê” de acusação contra os responsáveis pela derrocada da UP. Outra noção que ajuda a definir o documentário é a de Ursula Langmann, em texto sobre Le found de l’ air est rouge (LANGMANN, 1986). Essa outra produção markeriana também é montada a partir de outros documentos audiovisuais, restando poucas tomadas gravadas especialmente para ela. Isso a torna, de acordo com a autora, um “filme-montagem”, o que muitas vezes dificulta afirmações sobre o “modo de ver” de seu autor.

O mesmo problema metodológico está presente em “A Espiral”. O ponto de vista dos realizadores é visível pela montagem, que adquire uma importância ainda maior do que nos demais gêneros de filmes. É ela quem altera significados originais e cria outros, permitindo inclusive que materiais que serviam ao discurso da direita passem a falar pela voz dos militantes da esquerda.

Cabe ressaltar, porém, que ao atribuir esses novos sentidos, o documentário se propõe a ser um meio de construção de um conhecimento histórico. Portanto, um “novo lugar de memória”, conforme define Pierre Nora. Os conflitos entre história e memória, o ponto de vista objetivo ou subjetivo, a abordagem “neutra” ou o posicionamento político. Esses universos dialogam e se enfrentam quando consideramos o filme como um “objeto de cultura”, que desenvolve uma interpretação sobre o mundo histórico.

Vale retomar a pergunta que dá título ao artigo de Laurent Véray, “L´Histoire peut-elle se faire avec des archives filmiques?” (VÉRAY, 2008). Citando Marker entre outros cineastas, o autor ressalta que em seus filmes, compostos abundantemente de material de arquivos, seu objetivo consiste em reconstruir uma “hipotética verdade histórica” que reflita sobre seus significados mais profundos. Mais do que uma encenação do passado, ele propõe sua interrogação.

Outro autor que faz referência à concepção historiográfica presente na filmografia de Marker é François Niney (NINEY, 2002). Para ele, a volta de imagens já vistas é um convite a recompor a história, que deixa de ser uma comemoração para ser uma retomada. As imagens do passado compõem uma cartografia formada por lembranças e esquecimentos. O papel do cineasta passa a ser o de recompor as teias pelas quais é trançado o tecido do tempo.

“A Espiral” pretende recontar o governo da UP, usando para isso suas imagens e documentos de um ponto de vista inédito. “Filme-dossiê”, seus realizadores buscam uma nova versão para o passado recente. E, assim como fazem os historiadores, a ida aos arquivos é fundamental.
Bibliografia

LANGMANN, Ursula. “O manual de história idealizado”. In: GRÉLIER, Robert et. all. O bestiário de Chris Marker. Lisboa: Livros Horizonte, 1986. pp. 29-61.

NINEY, François. “L’éloignement des voix repare em quelque sorte la trop grande proximité des plans”. In: DUBOIS, Philippe. Théorème 6: Recherches sur Chris Marker. Paris: Presses Sorbonne Nouvelle, 2002.

ODIN, Roger. “Film documentaire, lecture documentarisante”. IN: ODIN, R. e LYANT, J. C. (ed.). Cinémas et réalités. Saint-Etienne: Universidade de Saint-Etienne, 1984. p. 263-277.

RECINE, Rene. “A história pode ser feita com arquivos fílmicos?”. Festival Internacional de Cinema de Arquivo, Arquivo Nacional, set. 2004.

ROSENSTONE, Robert A. A história nos filmes; os filmes da história. São Paulo: Paz e Terra, 2010.

TOUBIANA, Serge. "Sovoir posthume (La Spirale)". Cahiers du cinema, n.265, mar./abr. 1976, p. 56-60.