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  Título
Fronteiras da violência, fronteiras de gênero: cartografando o narcocine mexicano
Autor
Maurício de Bragança
Resumo Expandido
O cinema mexicano foi marcado por um forte modelo industrial durante as décadas de 1940 e 1950. Sua produção era substancialmente referenciada por um modelo que tinha nos filmes de gênero um caminho seguro. O melodrama, em todas as suas múltiplas subcategorias narrativas (como os melodramas rancheiros, os melodramas cabareteiros, os melodramas históricos, etc), dividia com a comédia o gosto do público. Nesse modelo, as narrativas cinematográficas eram alimentadas por outros padrões culturais que circulavam na indústria cultural, como as matrizes folhetinescas do gênero melodrama ou, mais especificamente, o bolero nos filmes de cabaré. O gênero narrativo ajudava a constituir, através das imagens promovidas pelo cinema, padrões de comportamentos e modelos do masculino e do feminino que circulavam pela sociedade, criando, através de estereótipos, padrões de relações assimétricas entre os gêneros, e confirmando matrizes marcadamente heteronormativas e falocêntricas presentes nestes discursos. Assim percebemos uma relação entre gênero narrativo e a genderização dos discursos fílmicos. Esta comunicação pretende enfocar algumas discussões presentes num repertório de filmes que problematizam o tema da fronteira entre o México e os Estados Unidos. A fronteira norte do México forma parte de um importante imaginário entre os dois países e assumiu inúmeras representações ao longo da história do cinema mexicano, estadunidense e também chicano. Esta larga produção, que ganhou corpo ainda na pimeira metade do século XX, foi identificada pela pesquisadora Norma Iglesias Prieto como “cine fronterizo”. Este conceito se refere não somente à temática presente nas inúmeras narrativas sobre a fronteira, mas também corresponde à caracterização de determinados personagens, a uma forma específica de produção e às discussões geopolíticas que se desdobram a partir dos conflitos históricos delineados nessa zona limítrofe. Dentre esta produção, encontra-se um repertório de filmes conhecidos como narcocine. Tais filmes, que se constituíram como repertório a partir da década de 1970, tiveram suas narrativas originadas nas letras dos narcocorridos, dedicados a contar as histórias dos grandes chefes do narcotráfico localizado nas cidades de fronteira entre o México e os Estados Unidos, como Ciudad Juárez e Tijuana, principalmente. As letras destas canções, assim como as narrativas destes filmes apontam para uma espécie de mitificação da figura do traficante, ao mesmo tempo que aponta para uma espécie de legitimação social da figura do narco. Segundo o pesquisador Roger Domingo de los Santos, a construção da masculinidade joga um papel fundamental na constituição das personagens que configuram a estrutura da narrativa dos narcocorrido e dos filmes do narcocine. Aqui, faremos um apanhado das principais características destes filmes, reforçando o aspecto político que se coloca de maneira preponderante nesta espécie de subgênero de “cine fronterizo”, tentando problematizar uma mirada em direção ao que Judith Butler define como uma “performance de gênero”. A constituição da masculinidade em torno dessa figura tão presente na cultura popular mexicana, o narcotraficante, projeta uma narcopaisagem na qual a fronteira se constitui geográfica e simbolicamente. A violência se estabelece como matriz da narrativa em torno da qual todas as formas de negociações se materializam, tanto no aspecto das relações de poder marcadamente misóginas quanto no sentido de legitimação de um Narcoestado, capaz de suportar o imaginário em torno do narcotraficante, chefe dos grandes cartéis.
Bibliografia

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