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  Título
O novo cinema português e o cinema novo brasileiro: o caso Glauber
Autor
Paulo Cunha
Resumo Expandido
Paulo Rocha conheceu Glauber em Cannes (1964) e voltariam a encontrar-se em Acapulco (1965) e Montreal (1967). Fernando Lopes conheceu Glauber em Pesaro (1964) e tentaram desenvolver um projecto comum antes da morte do brasileiro. António da Cunha Telles e José Fonseca e Costa também se relacionaram com Glauber, sobretudo nos últimos anos em Sintra. Em 1974, quando a Revolução chegou a Portugal, Glauber foi dos primeiros estrangeiros a viajar para Portugal e logo foi convidado a colaborar no filme colectivo As Armas e o Povo (1975), um documentário que retrata os primeiros dias de um povo a viver os primeiros dias de liberdade em processo revolucionário.

São reconhecidas pelos próprios jovens promotores da geração de 1960 diversas afiliações e influências estéticas e éticas estrangeiras que contribuíram para o esforço de renovação no cinema português de então. Num inquérito promovido pela Cinemateca Portuguesa em 1985, a propósito da primeira retrospectiva do novo cinema português, uma das principais questões dizia respeito às influências de cinematografias estrangeiras: Considera que os seus filmes (tanto ao nível da produção, como ao nível estético) se filiam, ou foram influenciados, em movimentos internacionais? Na sua resposta, Fernando Lopes cita uma máxima popularizada por Glauber Rocha como inspiração: “câmara na mão e pé no chão”. Ainda assim, as principais referências internacionais assumidas vinham das novas vagas europeias.

Infelizmente, e apesar de alguns esforços recentes, as relações entre novo cinema português e cinema novo brasileiro são ainda pouco conhecidas ou estudadas: Que relações pessoais ou profissionais se conhecem entre cineastas dos dois países? Que condições de recepção e divulgação, por parte do público e da crítica, conheceram os filmes no país-irmão? Que influências estéticas e éticas terão exercido um cinema novo sobre o outro? Os modos de produção de um terão sido exemplo ou inspiração para o outro? Os processos de afirmação e reconhecimento, quer no interior como no exterior, terão sido similares? Estas são algumas perguntas que procuro abordar na minha apresentação, partindo do estudo de caso do cineasta Glauber Rocha. Por ser uma figura com múltiplas relações com Portugal e considerada ímpar no cinema novo brasileiro, Glauber terá sido, como acredito, um elemento fundamental no diálogo entre os jovens novos cineastas dos dois países.

Objectivamente, o que pretendo é fazer uma arqueologia das relações entre o cinema novo brasileiro e o novo cinema português, mas também do posicionamento das duas cinematografias perante conceitos mais amplos como o nuevo cine latinoamericano ou as european new waves. Interessa-me também conhecer e reflectir sobre a forma como estes dois novos cinemas que se expressavam através da língua portuguesa se posicionaram nos circuitos cinéfilos internacionais que defendiam um cinema como forma de expressão artística e cultural e como experiência moderna.

Bibliografia

AA. VV. – Cinema Novo Português 1962-74. Lisboa: Cinemateca

Portuguesa, 1985.

Cunha, Paulo – Os filhos bastardos. Afirmação e reconhecimento do

novo cinema português 1967-74. Coimbra: Tese (Mestrado) Universidade de Coimbra, 2005.

Figueirôa, Alexandre – Cinema Novo: a onda do jovem cinema e sua recepção na França. Papirus: São Paulo, 2004.

Melo, Jorge Silva (org.) – O rio do ouro. Lisboa: Cinemateca Portuguesa, 1996.

Pierre, Sylvie – Glauber Rocha. Campinas: Papirus, 1996.

Sales, Michelle – Em busca do um novo cinema português. Covilhã: Labcom, 2011.

Silva, Regina – O Cinema brasileiro em Portugal. Contexto e análise da crítica acerca de filmes brasileiros publicada na imprensa lisboeta (1960-1999). Lisboa: Tese (Doutoramento) Universidade Nova de Lisboa, 2006.

Turigliatto, Roberto (org.) – Paulo Rocha. Torino: Lindau, 1995.