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  Título
Ambigüidade e imagem sonora
Autor
Virginia Osorio Flores
Resumo Expandido
1. O conceito de obra aberta

A maioria das artes trabalha em algum grau com um coeficiente de abertura no que diz respeito à recepção de suas obras, deixando espaços para que o sujeito que frui interprete e complete suas propostas. Se os signos usados pelo autor não podem ser colhidos em mensagens exatas e diretas, é porque existem aberturas nessa comunicação. Os significados, então, tornam-se ambíguos, colocando intencionalmente a obra aberta à livre reação do receptor. A abertura elide a univocidade. Portanto a compreensão da composição original será sempre modificada por cada perspectiva particular e individual. Essa é a finalidade da ambigüidade nas obras contemporâneas, ter uma infinidade de significados que convivam num só significante. Antecipar um futuro ainda não dominado. Eternizar o transitório, como se a mudança fosse continuamente buscada.

2. A arte moderna e o cinema moderno

O cinema, apesar de ter surgido na era moderna, contemporâneo das artes modernas, nasceu clássico. Os enredos se desenvolvem logicamente, com princípio, meio e fim, a representação do tempo é linear, contínua. A imagem sempre nivelada, o som procurando imitar a perspectiva da imagem e trabalhado, sobretudo, como reforço enfático desta (sincronismo entre as duas bandas principalmente). Em Deleuze o cinema clássico equivale ao conceito de ‘imagem-movimento’, onde as descrições fazem pressupor uma realidade e a narrativa remete sempre a uma forma do verdadeiro.

A modernidade do cinema, em termos estéticos, só se deu por volta de uns cinqüenta anos depois de sua criação. A crise que abalou o cinema clássico dependeu de muitas razões que só atuaram plenamente após a guerra. Na passagem do cinema clássico para o moderno, há o surgimento de uma nova estética fundamentada no descontínuo, onde a sugestão funciona como princípio de transmissão dessas escolhas. O mundo não será mais apresentado mas deverá ser percebido pelo espectador, um mundo diferente do real e muito particular de cada obra. Para este novo cinema, Deleuze (1990) criou o conceito de ‘imagem-tempo’: o esquema sensório-motor de ação e reação é substituído por um encadeamento de situações, puro devir, que vão exigir uma vivência do espectador.

3. A imagem sonora

No cinema moderno há uma nova distribuição do visual e do falado. Em O ano passado em Mariambad (1958), por exemplo, há uma acintosa assincronia entre as bandas visuais e sonoras. Elas se desmentem, se contradizem, não podemos dar mais ‘razão’ a uma do que a outra, o visual não tem qualquer privilégio de autenticidade. Com relação ao som, nos parece que houve aqui um retorno às origens, como quando este foi gravado e depois reproduzido pela primeira vez: uma autonomia da coisa em si (imagem visual) que o causou. Ficou uma representação.

O cinema moderno, rompendo com a forma clássica de trabalhar a representação do tempo e do espaço segundo estudos consagrados, pôde ocupar-se do som de uma maneira mais livre da imagem na tela, muitas vezes escapando ao quadro, lançando-se mesmo num vôo autônomo, propiciando leituras e significados abertos, retomando sua condição material essencial de vestígio de algo passado e algo por vir, mexendo com o imaginário do espectador e, finalmente, ser incluído na teoria cinematográfica.

Uma situação ótica e sonora pura permite apreender do que é representado num estado de alma, algo intolerável, insuportável. Algo miserável de mais, ou bonito de mais, que não é colocado de forma objetiva, mas indireta, que obriga o espectador a vivenciá-las, a senti-las e com isso tornar-se visionário, fazer da visão pura um meio de conhecimento relacional, e não mais de reconhecimento.

Bibliografia

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CHION, Michel. L’audio-vision, son et image au cinéma. Paris: Éditions Nathan; 1990.

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ECO, Umberto. Obra aberta. São Paulo: Perspectiva; 2003, 9ª edição.

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