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  Título
Olhares em movimento: uma análise de Vicky Cristina Barcelona (2008)
Autor
Fabiana Crispino Santos
Resumo Expandido
A sociedade ocidental contemporânea é marcada pela configuração cada vez mais diversificada dos mercados, das técnicas de produção e reprodução de imagens e dos fluxos comunicacionais. Com o aumento dos processos de globalização e as discussões decorrentes da ampliação e da complexificação da interação entres os povos, bem como a circulação otimizada de informação e de bens comerciais e culturais, cresce também a problematização da convivência simultânea entre civilizações e tradições distintas.

Esta proximidade traz à tona a questão do olhar e do diálogo com o outro como um dos expoentes fundamentais no delineamento das identidades próprias dentro de um contexto pluralizado de diversidade e de multiplicidade, agravado pela interferência das novas tecnologias e dos meios de comunicação massivos, não só pelo deslizamento das fronteiras espaciais e temporais, mas também pelo estímulo ao contato facilitado através dos processos de interação trazidos com o advento da era digital. De acordo com Silvano Peloso (1996:167), “não só porque para participar do diálogo precisamos de uma “língua nossa”, mas também porque o “olhar do outro” é fundamental para nos identificarmos, para a definição de nossa própria identidade”.

A idéia de um panorama mais aberto no que diz respeito à interatividade profícua entre os valores das várias sociedades perpassa o conflito entre o que Peloso chama de “etnocentrismo autoritário”, a tentativa de perpetuação de culturas expansionistas, que remonta ao período colonial e ao imperialismo, e o “multiculturalismo sem fronteiras”, a falta de critérios e de referências que gera uma abertura irrestrita e caótica. Para o autor, esta tensão constitui na realidade um falso dilema que precisa ser ultrapassado, na medida em que deve-se buscar a conjugação recíproca dos valores universais comuns e das particularidades culturais, sem prejuízo à existência das coletividades diversas.

Esta parece ser também uma das alternativas analisadas por Marc Augé, quando ele propõe um estudo antropológico da “mobilidade”, conceito que deve ser encarado como algo que ultrapassa a mera deambulação geográfica e atinge dois níveis: os movimentos populacionais, que incluem atividades como o turismo, as migrações e os deslocamentos profissionais; e os movimentos comunicacionais, de circulação cada vez mais acelerada de produtos e de informações. A mobilidade permite pensar a supermodernidade a partir de seu caráter paradoxal, correspondendo a “um mundo onde podemos teoricamente fazer de tudo sem nos movermos e onde, contudo, nos movemos” (AUGÉ, 2009:8).

A mobilidade está associada à dinâmica e à ideologia do sistema da globalização, e à discussão da desterritorialização e do individualismo enquanto valores contraditórios que precisam ser pensados através de um posicionamento crítico, tanto nas esferas da fronteira, da urbanização, da migração, da viagem e da utopia quanto na valorização de uma postura transcultural.

Além disto, se a apropriação mútua dos traços culturais, ocorrida em particular nas trocas e nos contatos entre as culturas, tem como resultado, por um lado, o reforço do hibridismo, por outro implica uma re-significação dos valores apropriados a partir de sua inserção em outros contextos sociais, lingüísticos, políticos, econômicos, estéticos, religiosos, entre muitos outros. Isto fortalece a multiplicidade como resultado dos diálogos: “o panorama histórico, cultural e literário só tem a ganhar com uma análise que leve em consideração o multiplicar-se das situações e dos pontos de vista, expressões de um contexto cada vez mais variado e complexo: uma metodologia multicultural” (PELOSO, 1996:169).

É pensando nesta direção que se dá o objetivo desta reflexão: analisar os deslizamentos das noções de identidade e de alteridade, especialmente tendo em vista as complexidades próprias do conceito de estrangeiro, através de uma leitura do filme Vicky Cristina Barcelona (2008), do diretor Woody Allen.

Bibliografia

AUGÉ, Marc. Pour une anthropologie de la mobilité. Paris: Éditions Payot & Rivages, 2009.

BHABHA, Homi K. O local da cultura. BH: Editora UFMG, 2007.

BRISSAC, Nelson. É a cidade que habita os homens ou são eles que moram nelas? In: Revista USP, n.15. SP, set/out/nov 1992.

GUMBRECHT, Hans Ulrich. Minimizar identidades. In: JOBIM, J.L. (org.). Literatura e identidades. RJ: Ed. UERJ, 1999.

LIMA, João Gabriel de. Mergulho na mente do artista. In: Revista Bravo, 135. SP: Ed. Abril, novembro de 2008.

MORIN, Edgar. Do submarrano ao pós-marrano. In: Meus demônios. RJ: Bertrand Brasil, 1997.

PELOSO, Silvano. Identidade nacional e sociedade multicultural. In: Revista Brasileira de Literatura Comparada, 3. RJ: ABRALIC, 1996.

VIEGAS, Ana Cláudia. Walter Salles em terra estrangeira. In: Cinemais, n.21. jan/fev 2000.

WENDERS, Win. A paisagem urbana. In: Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. No 23: Cidade. RJ: IPHAN, 1994.