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  Título
Os mil platôs culturais dos documentários musicais
Autor
Caroline da Silva
Resumo Expandido
Como poderíamos interpretar as notas visuais de um repórter-cineasta? O escritor italiano Mássico Canevacci (2001), defende claramente uma antropologia do cinema. Mas é impossível falarmos de audiovisual, sem considerar que o filme é um produto idealizado, manufaturado e distribuído por uma indústria cinematográfica.

De três anos (2008) para cá, a produção nacional assinalou diversos longas-metragens documentários resgatando ícones, fatos ou gêneros da música popular brasileira. Entre esses títulos, pode-se citar: O milagre de Sta. Luzia, Elza, Palavra (En)cantada, O homem que engarrafava nuvens, O samba que mora em mim, Waly, Wilson Simonal – Ninguém Sabe O Duro Que Dei, Coração vagabundo, Loki – Arnaldo Baptista, Uma noite em 67. Há muitos outros, esses são ditos rapidamente.

Então, pergunta-se: é possível identificar imaginários do Brasil representados pelo ponto de vista do cineasta no seu produto final, o documentário? Não estariam presentes o mito do sertão e do retirante em O milagre de Sta. Luzia e O homem que engarrafava nuvens?

O segundo é um filme sobre a vida e a obra do compositor, advogado, deputado federal e criador das leis de direitos autorais, Humberto Teixeira. O Doutor do Baião, como Teixeira era conhecido, assina a autoria de clássicos da música popular, como por exemplo, Asa Branca. O média-metragem dirigido pelo reconhecido diretor pernambucano Lírio Ferreira é uma celebração da obra artística e musical de um brasileiro, e parte da inquietação de sua filha Denise Dummont em querer conhecer mais a história do pai.

Mostrando a diversidade cultural brasileira por meio da musicalidade da sanfona, o cineasta – estreante em longas – Sérgio Roizenblit faz um mapeamento cultural das diferentes regiões do país onde o instrumento se estabeleceu no filme O Milagre de Sta. Luzia. Entre preciosos registros desses grandes artistas populares, estão os do poeta Patativa do Assaré e dos músicos Sivuca e Mário Zan, falecidos pouco tempo depois de suas entrevistas para o documentário.

Em entrevista à autora em fevereiro de 2010, Lírio Ferreira avaliou ser positivo esse fenômeno de documentários musicais na filmografia nacional e comentou: “O cangaço é um tema peculiar do Brasil, todo ano aparece um filme novo. É uma coisa normal, música oficialmente é nossa identidade cultural lá fora, a gente não é reconhecido pelo cinema, teatro ou artes plásticas. Acho que nada mais natural, com o potencial que o cinema tem de contar uma boa história, de fazer novas apreensões. É uma coisa nova, bem intensa, talvez pela facilidade de filmar que se tem hoje. Vão ter ainda muitos filmes que falem do universo musical pela frente”.

Para a Escola de Palo Alto, da qual Bateson é o grande representante, a essência da comunicação reside nos processos relacionais de interação, nos comportamentos e na sucessão de mensagens (o contexto). Outra questão relevante é a mediação da cultura e do imaginário. Segundo outro integrante da “Universidade Invisível” muito preocupado com as questões do contato e da dimensão oculta da cultura, Edward Hall, “a cultura é decifrável: é preciso apenas descobrir pouco a pouco a sua ‘linguagem silenciosa’” (Winkin, 1998, p. 93). Para o pesquisador, “todo o silêncio fala”, o que também traduz as escolhas do cineasta, quando decide deixar em um filme um certo período sem diálogo.

Estabelecendo um recorte para analisar a relação do diretor e de seus "documentados" o trabalho objetiva identificar as formas de (re)construção dos imaginários em um filme documentário.

"Assim, não se pode mais falar de uma forma sonora que viria organizar uma matéria; nem mesmo se pode mais falar de um desenvolvimento contínuo da forma. Trata-se, antes, de um material deveras complexo e bastante elaborado, que tornará audíveis forças não-sonoras" (Deleuze, 1995). O autor instiga a pesquisadora a reconhecer as forças presentes neste material, o documentário, tão complexo e "montado" que acaba por fornecer um "retrato" da cultura brasileira.
Bibliografia

AUMONT, Jacques & MARIE, Michel. Dicionário teórico e crítico de cinema. Campinas, SP: Papirus, 2003.

BARBOSA, Andréa e CUNHA, Edgar Teodoro da. Antropologia e Imagem. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006. (Passo-a-passo, v. 68)

BERNARDET, Jean-Claude. Cineastas e imagens do povo. São Paulo: Brasiliense, 1985.

BERND, Zilá (org.). Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas. Porto Alegre: Ed. UFRGS, 2007.

CANEVACCI, Massimo. 5. Uma tipologia de pesquisa sobre a comunicação visual. IN: _________ . Antropologia da comunicação visual. Rio de Janeiro: DP&A, 2001. p. 153-188.

DELEUZE, G e GUATTARI, F. Mil Platôs. v 2. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995.

MOURÃO, Maria Dora e LABAKI, Amir (orgs.). O cinema do real. São Paulo: Cosac Naify, 2005.

ROJAS MIX, Miguel. El imaginario: Civilización y cultura Del siglo XXI. Buenos Aires: Prometeo Libros, 2006.

WINKIN, Yves. A nova comunicação: da teoria ao trabalho de campo. Campinas, SP: Papirus, 1998.